Ou do Erro na atualização do Sistema.
Filosofia, Razão e Ciência Moderna. O filósofo Imanuel Kant, pensador do final do século XVIII, foi quem desenvolveu o código-fonte do software que todos nós, homens andróides da sociedade moderna, como costuma dizer Dieter Heidemann, utilizamos para justificar e reproduzir a modernidade como momento último e acabado tanto da forma de sociabilização humana quanto da forma de pensá-la. O Iluminismo, que garante à ciência uma autojustificação (Kurz, Razão Sangrenta.) do mundo moderno pelo conceito de razão, tem suas bases criadas no campo da filosofia e da teoria do conhecimento por Kant. Como se deu esse processo? Será que no século 21 ainda estendemos e agimos no mundo de acordo com esse software iluminista? E essa é mesmo a única e última forma do pensamento humano acabado? É possível pensar para além desta forma?
“Kant define a filosofia como ‘a ciência da relação entre todos os conhecimentos e os fins essenciais da razão humana’; ou como ‘o amor que o ser racional experimenta pelos fins supremos da razão humana’ (Crítica da Razão pura). Os fins supremos da Razão formam o sistema da Cultura” (Deleuze, A Filosofia Crítica de Kant, p.09).
O confronto entre Racionalismo e Empirismo
Kant vivia em um contexto de enfrentamento filosófico entre duas correntes de pensamento, o Racionalismo e o Empirismo. Ambas buscavam garantir as bases filosóficas de um pensamento certo e indiscutível, uma busca por verdades duráveis e até mesmo absolutas.
O Racionalismo
René Descartes
Para o racionalismo a razão é a única faculdade capaz de garantir um conhecimento adequado da realidade. Cogito ergo sum (Penso, logo existo) é a frase mais famosa de Descartes, que pode ser entendida como a coincidência entre pensar e existir, ou ainda que a realidade e a razão são estruturas análogas, concordantes.
“Descartes, em 1637, no seu Discours de la Méthode, mostra que a ação (analytique) de resolver um problema é procurar o méthode (meta, caminho, raciocínio) que permite decompor seu todo nas partes que o constitui”.(Venturi, 2008). O método analítico de Descartes se refere a alguns tipos de idéias inatas, contidas na própria natureza, das quais o pensamento deveria se ocupar, através de análises sobre as menores parcelas possíveis e por meio de operações matemáticas indutivas.
“De um lado, a confiança na capacidade do pensamento matemático, símbolo da autonomia da razão, para interpretar adequadamente o mundo; de outro, a necessidade de conferir ao conhecimento racional uma fundamentação metafísica [fundamentada pela matemática] que garantisse sua certeza. Para Descartes, a realidade física coincide com o pensamento e pode ser traduzida por fórmulas e equações matemáticas. Descartes estava convicto também de que todo conhecimento procede de idéias inatas - postas na mente por Deus - que correspondem aos fundamentos racionais da realidade. A razão cartesiana, por julgar-se capaz de apreender a totalidade do real mediante "longas cadeias de razões", é a razão lógico-matemática. O racionalismo entendia a totalidade do real como estrutura racional criada por Deus, "grande geômetra do mundo". (fonte)
O processo de indução, que se orienta a partir de sentenças gerais para entender sentenças particulares é portanto fundamental para o Racionalismo, pois uma vez indentificados o movimento (tempo) e a extensao (espaco) das coisas, e traduzidas em linguagem matematica, poderiam servir de sentença geral para entender outro momentos particulares de realizaçao dessa razão.
É importante frisar que essa faculdade da razão humana que persegue uma ordem geral do mundo a partir de leis, é, para o Racionalismo e também para Kant, a redução dessa forma específica do pensamento moderno como ontológico e transhistórico, e entende a revolução no modo de pensar empreendida por Kant como a última possível dessa natureza. (Ortlieb, Claus Peter - A objetividade inconsciente)
Outro autor racionalista que influenciaria Kant é Leibniz, que vê na relação entre causa e efeito uma harmonia da qual se pode derivar um propósito moral do mundo. Kant se detém sobre a questão da moral mais detidamente em A crítica da Razão Prática, onde desenvolve o seu conhecido Imperativo Categórico: Aja apenas segundo a máxima que você gostaria de ver transformada em lei universal.
Nietzsche, já no século XIX se colocaria como um importante crítico da modernidade, tanto nas críticas aos pincípios morais Kantianos, como as buscas cegas pelas verdades empreendidas pela ciência. Para Nietzsche o Racionalismo é Irracionalismo, as verdades sangrentas e Kant uma tarântula catastrófica. Nietzsche já percebe em seu tempo quais transformações históricas se desenrolam no bojo da razão sangrenta iluminista, como viria a chamar já no século XXI, Robert Kurz.
Dentre as influências de Leibniz em Kant podemos citar a visão da humanidade como participante da finalidade última do universo (concepção teleológica de história, desenvolvida também posteriormente por Hegel em A razão na História, que descambaria na História Universal) e não como mera participante da natureza. E já que a humanidade é a finalidade última do mundo, o pensamento deve encontrar uma forma análoga. A filosofia deve criar os pressupostos de um pensamento que se entenda como a racionalidade última e acabada da humanidade.
Outro elemento apontado como influencia de Leibniz em Kant é a visão pragmática da natureza, a natureza útil ao homem. Este deveria, de acordo com Francis Bacon, se entender como Legislador da Natureza: cabe à ciência estabelecer o imperium homini sobre as coisas.
O mais radical dos cartesianos e Spinoza, ”que nega a diferença entre res cogitans - substância pensante - e res extensa - objetos corpóreos - e afirmar a existência de uma única substância estabeleceu um sistema metafísico aproximado do panteísmo. Reduziu as duas substâncias, res cogitans e res extensa, a uma só - da qual o pensamento e a extensão seriam atributos”. (fonte)
Entretanto para Georg Lukacs, filósofo marxista do início do século XX, "Pensamento e existência não são idênticos no sentido de que eles ‘correspondem’ um ao outro, ou ‘refletem’ um ao outro, que eles ‘correm paralelos’ um ao outro, ou ‘coincidem’ um ao outro (todas expressões que escondem uma dualidade rígida).” Lukács combate todos esses dualismo a partir da noção da relação intríseca entre subjetividade e objetividade, através de uma relação de determinação por meio das formas específicas da sociabilização capitalista moderna (ex. forma mercadoria). Lukacs chega ao extremo de dizer que é da natureza do sistema social moderno produzir os fatos puros, uma vez que é ele quem orienta a constituiçao de uma forma de pensamento que os persegue. Veremos essa questão mais detidamente em outro momento.

O fim e o devido término de um imenso erro?
Em Novum Organum, Bacon apresenta a noção de Ídolos, as falsas noções responsáveis pelos erros cometidos pela ciência e pelos homens que fazem ciência. Uma forma de pensar que Kant realiza um projeto de eliminação desses erros, está no epíteto que abre sua principal obra, Crítica da Razão Pura, extraído de outra obra de Bacon, Instauratio Magna:
De nossa parte silenciamos: Quanto ao assunto porém, de que se trata aqui, pedimos que os homens não o considerem uma simples opinião, mas de fato, uma obra; e que tenham de que não se trata da fundação de uma seita ou da justificação de uma idéia, mas da fundamentação da utilidade e da grandeza humanas. Que, então, cada um, no seu próprio interesse... atenda ao bem comum... e se empenhe por ele. Afinal, que cada um tenha boa fé e não julgue a nossa Instauratio Magna algo infinito ou ultramonta e a compreenda; pis, em verdade, ela significa o fim e o devido término de um imenso erro. (in Bacon, Francis. Instauratio Magna Grande Restauração] , Prefácio.)
Essa afirmação ilumina o sentido da razão e do pensamento científico moderno, pois demonstra como eles se entendem como forma última e acabada do pensamento humano: a forma de pensamento moderno e a razao como ontológicos.
Dentre os tais ídolos de Bacon ídolos está o Idola Theatri, uma crítica fundamental para a substituição do raciocínio silogístico para o raciocínio indutivo, e a consolidação de um conhecimento "certo" e "verdadeiro", pois propõe que o conhecimento deve ser alcançado através de um método ordenado, indutivo e passível de verificação empírica. Entretanto é somente com Kant que a filosofia atinge esse grau de coerência interna entre as formas de ordenação do pensar em relação à experiência, e consegue estabelecer uma correlação entre a verificação empírica e a razão.
É sobre a questão da Experiência que outro autor, David Hume, com seu ceticismo empiricista, apresentado em Tratado sobre a natureza Humana, realiza as críticas mais contundentes à Metafísica ainda presente nas idéias inatas do Racionalismo e ao procedimento da Causalidade, aquela operação metodológica fundamental para o Racionalismo. Segundo Hume a relação entre causa e efeito só é possível pela através de uma observação humana induzida, pois só experimentamos uma seqüência de percepções. Portanto a relação causa-efeito é uma suposição que nunca poderá ser experimentada. E para os empiricistas, herdeiros de Bacon, todo conhecimento só pode nascer da experiência. O processo de dedução, que se orienta a partir de sentenças particulares, possibilitadas pela experiência, é, portanto fundamental para o Empiricismo.

Newton será um grande influenciador de Kant no campo do empiricismo ao desenvolver uma física matemática, empiricamente demonstrável, nos seus estudos sobre o movimento dos corpos. Pois é em Newton o conhecimento atinge dois patamares fundamentais para o pensar científico: a necessidade (é assim e só assim) e a universalidade (conservadas as variáveis, sempre será assim).
Revolução no modo de pensar em Kant: A síntese entre Racionalismo e Empiricismo
A principal contenda que se estabelece entre Racionalismo e Empiricismo é a origem desse conhecimento certo. Qual é a origem objetiva do conhecimento, ou ainda, qual é a origem do conhecimento objetivo? A objetividade está na experiência? Ou na Razão das idéias inatas, já presentes na natureza?
Como já dito antes, Kant estava interessado em estabelecer algum tipo de ciência definitiva, que garantisse a verdade do conhecimento, por entender o pensamento moderno como razão humana. Interessava a ele definir a objetividade do conhecimento, uma vez que a humanidade, a partir do esclarecimento havia atingido um novo patamar. Com uma simples frase pode-se resumir a revolução no modo de pensar, empreendida por Kant: “Toda experiência deve se referir ao conhecimento”. Kant inverte a sentença Empiricista e mostra que eles não eram tão opostos assim (Chauí, Marilena. Apresentação de Crítica à Razão Pura). Portanto, de Kant em diante toda experiência será racionalizada (reduzida a a forma do método científico) ou não se tratará de um ciência. E como uma experiência é racionalizada? O próprio Kant nos diz que "Em cada teoria particular da natureza há tanta ciência autêntica quanto nela se encontre matemática", pois assim se torna possível a identificação de leis e fatos irrefutáveis.
Esse postulado está naturalizado na nossa forma de pensar o mundo, mas deve entendido como uma construção histórica e, portanto, não a única possível. A noção de busca de leis naturais objetivas está orientada por uma condição historicamente produzida de pensar e viver: as formas sociais fundamentais do capitalismo. Nossa prática social moderna é que exige que pensemos assim, o que nos permitirá dizer que essa forma de pensar não é ontológica ou da natureza do homem, é histórica e pode desmororar junto com o colapso do sistema produtor de mercadorias.
A metafísica do Real em Marx
O Método Transdcendental
Kant vai desenvolver um sistema filosófico para estabelecer os rumos dessa racionalização. A categoria central desse sistema é o Juízo Sintético, que é o levantamento de uma hipótese (Sentença Geral) que apresenta um conceito de predicado inexistente no conceito de sujeito. E qua ainda por cima essa sentença apresente-se universalmente e necessária. Vamos explicar por partes.
Por exemplo, dizer que a bola é vermelha contém um conceito de predicado (vermelho) que não está contido no conceito de sujeito (bola).
Mais ainda nos faltam a necessidade e a universalidade:
- Toda bola é vermelha é um juízo necessário, pois todo conceito de sujeito deve conter o conceito de predicado.
- A universalidade pode ser atingida definindo-se as variáveis que garantiriam a universalidade da afirmação:
Nesta sacola, toda bola é vermelha.
Esse é um juízo sintético a posteriori, pois dependeu de uma experiência. Eu tive que olhar a sacola e perceber que nela todas as bolas são vermelhas. Os juízos sintéticos a posteriori são importantes, mais ainda não reside neles o fundamento da ciência.
Para Kant devemos ser capazes de estabelecer juízos sintéticos a priori, ou seja, que não dependem da experiêcia.
A menor distância dois pontos é a reta
Esse é um juízo sintético a priori.
Os juízos sintéticos a priori são importantes porque são amparados por um conhecimento objetivo abstrato (matemática) e ainda assim são passíveis de verificação empírica.
Esse método em Kant é definido com Transcendental, pois deseja transcender os juízos analíticos, aqueles que contém somente uma afirmação presente no próprio conceito de sujeito. Por exemplo, em “a bola é redonda” o conceito de predicado (redonda) já está presente no conceito de sujeito. (bola)
Esse procedimento do pensar de uma sentença geral objetiva que permite descobrir uma sentença particular e contingente e vice-versa, através da relação entre juízos sintéticos a priori e a posteriori, é a definição mais clara do método dedutivo-indutivo, base dura do pensamento científico moderno.
“Em suma: a uma certa faculdade no primeiro sentido da palavra (faculdade de conhecer, faculdade de desejar, sentimento de prazer ou de dor) deve corresponder uma certa relação entre faculdades no segundo sentido da palavra (imaginação, entendimento, razão). E por tal motivo que a doutrina das faculdades forma um verdadeiro entrelaçamento, constitutivo do método transcendental”. (p.18).
Uma Crítica imanente, a razão como juiz da razão, tal é o princípio essencial do método dito transcendental.(p.11)
Kant e a crítica do pensamento Moderno [terminar]
Para Robert Kurz a formação do pensamento moderno tem suas raízes em uma objetividade histórica e socialmente construída. A imposição do sistema produtor de mercadorias necessita de um correlato no plano da consciência, uma vez que é imprescindível para a sua realização, a naturalização da forma-valor. A forma-valor é portanto uma obejtividade que orienta tanto a prática social da produção tautológica do valor através do trabalho abstrato, quanto a forma-pensamento inconscientemente objetiva.
“Trata-se, portanto, de Kant no estado da sensualidade, isto é, da dizimação de tudo que seja vivo e não consiga encaixar-se na abstração do valor”.
“Trata-se de uma teoria negativa, a construir para ela própria ser ultrapassada e tornada redundante, e já não do estabelecimento legitimador de um novo princípio positivo (semelhante à abstração capitalista do valor), segundo o qual tudo se deveria moldar“.
Kurz, Razão Sangrenta - 20 Teses contra o assim chamado Iluminismo e os "valores ocidentais, 2002).
Erro na atualização do sistema
O Sistema encontrou um erro fatal e será finalizado. A sociabilização capitalista se reproduz negando seus fundamentos. O nosso Sistema também encontrou uma limitação na forma de pensar o mundo dentro dos parâmentros modernos. Estamos diante de uma limitação objetiva, tanto para a prática quanto para o pensamento: ou essas Formas se implodem ou se transformarão radicalmente.
Glossário
Análise: Pappus de Alexandria, em 390 d.C., no seu Opus Magnus, estabelece o conceito matemático da palavra analytikós: os elementos desconhecidos de uma teoria são construídos com base nos elementos desconhecidos; e o todo é constituído de partes que se organizam em uma totalidade coerente e lógica. Para a ciência se trata do procedimento de divisão de uma totalidade a fim de que o todo possa ser analisado em suas partes. O procedimento de recomposição das partes é a síntese.
Método Científico: Trata-se de um conjunto de procedimentos mentais que conduz a ação científica para a busca de um determinado resultado pré-estabelecido. É a forma como o raciocínio é organizado para abordar o objeto. O método dedutivo-indutivo é o núcleo duro do método científico moderno.