quarta-feira, 29 de julho de 2009

Nota sobre Camaleões

Hoje vi um ser atropelado. No asfalto ficaram só as manchas de óleo coloridas como um arco-íris ao bater da luz do sol. A encruzilhada cheirava a barro e querosene. Também brilhavam as poças d'agua no meio fio que em seus reflexos mostravam raízes de árvores que protuberavam por sobre o concreto. Raízes comuns se não fosse pelo fato de serem feitas de cabos sintéticos. Raízes de diversos tamanhos, mas todos padronizados. Cobre por dentro e um tipo de borracha preta por fora.

Um adulto e uma criança andavam de mãos dadas. O primeiro surto de curiosidade da criança logo foi resolvido com uma resposta objetiva. Passaram pelo óleo de camaleão e pelos espelhos d'água também. Seus passos, firmes e obstinados, evidenciavam a certeza de que alguma coisa importante e urgente os esperava. Gente de vários tamanhos, mas todos padronizados. Pele por fora e lata por dentro.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Kant dois ponto um (Kant 2.1)

Ou do Erro na atualização do Sistema.

Filosofia, Razão e Ciência Moderna.

O filósofo Imanuel Kant, pensador do final do século XVIII, foi quem desenvolveu o código-fonte do software que todos nós, homens andróides da sociedade moderna, como costuma dizer Dieter Heidemann, utilizamos para justificar e reproduzir a modernidade como momento último e acabado tanto da forma de sociabilização humana quanto da forma de pensá-la. O Iluminismo, que garante à ciência uma autojustificação (Kurz, Razão Sangrenta.) do mundo moderno pelo conceito de razão, tem suas bases criadas no campo da filosofia e da teoria do conhecimento por Kant. Como se deu esse processo? Será que no século 21 ainda estendemos e agimos no mundo de acordo com esse software iluminista? E essa é mesmo a única e última forma do pensamento humano acabado? É possível pensar para além desta forma?

“Kant define a filosofia como ‘a ciência da relação entre todos os conhecimentos e os fins essenciais da razão humana’; ou como ‘o amor que o ser racional experimenta pelos fins supremos da razão humana’ (Crítica da Razão pura). Os fins supremos da Razão formam o sistema da Cultura” (Deleuze, A Filosofia Crítica de Kant, p.09).

O confronto entre Racionalismo e Empirismo

Kant vivia em um contexto de enfrentamento filosófico entre duas correntes de pensamento, o Racionalismo e o Empirismo. Ambas buscavam garantir as bases filosóficas de um pensamento certo e indiscutível, uma busca por verdades duráveis e até mesmo absolutas.

O RacionalismoRené Descartes

Para o racionalismo a razão é a única faculdade capaz de garantir um conhecimento adequado da realidade. Cogito ergo sum (Penso, logo existo) é a frase mais famosa de Descartes, que pode ser entendida como a coincidência entre pensar e existir, ou ainda que a realidade e a razão são estruturas análogas, concordantes.

Descartes, em 1637, no seu Discours de la Méthode, mostra que a ação (analytique) de resolver um problema é procurar o méthode (meta, caminho, raciocínio) que permite decompor seu todo nas partes que o constitui”.(Venturi, 2008). O método analítico de Descartes se refere a alguns tipos de idéias inatas, contidas na própria natureza, das quais o pensamento deveria se ocupar, através de análises sobre as menores parcelas possíveis e por meio de operações matemáticas indutivas.

“De um lado, a confiança na capacidade do pensamento matemático, símbolo da autonomia da razão, para interpretar adequadamente o mundo; de outro, a necessidade de conferir ao conhecimento racional uma fundamentação metafísica [fundamentada pela matemática] que garantisse sua certeza. Para Descartes, a realidade física coincide com o pensamento e pode ser traduzida por fórmulas e equações matemáticas. Descartes estava convicto também de que todo conhecimento procede de idéias inatas - postas na mente por Deus - que correspondem aos fundamentos racionais da realidade. A razão cartesiana, por julgar-se capaz de apreender a totalidade do real mediante "longas cadeias de razões", é a razão lógico-matemática. O racionalismo entendia a totalidade do real como estrutura racional criada por Deus, "grande geômetra do mundo". (fonte)

O processo de indução, que se orienta a partir de sentenças gerais para entender sentenças particulares é portanto fundamental para o Racionalismo, pois uma vez indentificados o movimento (tempo) e a extensao (espaco) das coisas, e traduzidas em linguagem matematica, poderiam servir de sentença geral para entender outro momentos particulares de realizaçao dessa razão.

É importante frisar que essa faculdade da razão humana que persegue uma ordem geral do mundo a partir de leis, é, para o Racionalismo e também para Kant, a redução dessa forma específica do pensamento moderno como ontológico e transhistórico, e entende a revolução no modo de pensar empreendida por Kant como a última possível dessa natureza. (Ortlieb, Claus Peter - A objetividade inconsciente)

Outro autor racionalista que influenciaria Kant é Leibniz, que vê na relação entre causa e efeito uma harmonia da qual se pode derivar um propósito moral do mundo. Kant se detém sobre a questão da moral mais detidamente em A crítica da Razão Prática, onde desenvolve o seu conhecido Imperativo Categórico: Aja apenas segundo a máxima que você gostaria de ver transformada em lei universal.

Nietzsche, já no século XIX se colocaria como um importante crítico da modernidade, tanto nas críticas aos pincípios morais Kantianos, como as buscas cegas pelas verdades empreendidas pela ciência. Para Nietzsche o Racionalismo é Irracionalismo, as verdades sangrentas e Kant uma tarântula catastrófica. Nietzsche já percebe em seu tempo quais transformações históricas se desenrolam no bojo da razão sangrenta iluminista, como viria a chamar já no século XXI, Robert Kurz.

Dentre as influências de Leibniz em Kant podemos citar a visão da humanidade como participante da finalidade última do universo (concepção teleológica de história, desenvolvida também posteriormente por Hegel em A razão na História, que descambaria na História Universal) e não como mera participante da natureza. E já que a humanidade é a finalidade última do mundo, o pensamento deve encontrar uma forma análoga. A filosofia deve criar os pressupostos de um pensamento que se entenda como a racionalidade última e acabada da humanidade.

Outro elemento apontado como influencia de Leibniz em Kant é a visão pragmática da natureza, a natureza útil ao homem. Este deveria, de acordo com Francis Bacon, se entender como Legislador da Natureza: cabe à ciência estabelecer o imperium homini sobre as coisas.

O mais radical dos cartesianos e Spinoza, que nega a diferença entre res cogitans - substância pensante - e res extensa - objetos corpóreos - e afirmar a existência de uma única substância estabeleceu um sistema metafísico aproximado do panteísmo. Reduziu as duas substâncias, res cogitans e res extensa, a uma só - da qual o pensamento e a extensão seriam atributos”. (fonte)

Entretanto para Georg Lukacs, filósofo marxista do início do século XX, "Pensamento e existência não são idênticos no sentido de que eles ‘correspondem’ um ao outro, ou ‘refletem’ um ao outro, que eles ‘correm paralelos’ um ao outro, ou ‘coincidem’ um ao outro (todas expressões que escondem uma dualidade rígida).” Lukács combate todos esses dualismo a partir da noção da relação intríseca entre subjetividade e objetividade, através de uma relação de determinação por meio das formas específicas da sociabilização capitalista moderna (ex. forma mercadoria). Lukacs chega ao extremo de dizer que é da natureza do sistema social moderno produzir os fatos puros, uma vez que é ele quem orienta a constituiçao de uma forma de pensamento que os persegue. Veremos essa questão mais detidamente em outro momento.

O fim e o devido término de um imenso erro?

Em Novum Organum, Bacon apresenta a noção de Ídolos, as falsas noções responsáveis pelos erros cometidos pela ciência e pelos homens que fazem ciência. Uma forma de pensar que Kant realiza um projeto de eliminação desses erros, está no epíteto que abre sua principal obra, Crítica da Razão Pura, extraído de outra obra de Bacon, Instauratio Magna:

De nossa parte silenciamos: Quanto ao assunto porém, de que se trata aqui, pedimos que os homens não o considerem uma simples opinião, mas de fato, uma obra; e que tenham de que não se trata da fundação de uma seita ou da justificação de uma idéia, mas da fundamentação da utilidade e da grandeza humanas. Que, então, cada um, no seu próprio interesse... atenda ao bem comum... e se empenhe por ele. Afinal, que cada um tenha boa fé e não julgue a nossa Instauratio Magna algo infinito ou ultramonta e a compreenda; pis, em verdade, ela significa o fim e o devido término de um imenso erro. (in Bacon, Francis. Instauratio Magna Grande Restauração] , Prefácio.)

Essa afirmação ilumina o sentido da razão e do pensamento científico moderno, pois demonstra como eles se entendem como forma última e acabada do pensamento humano: a forma de pensamento moderno e a razao como ontológicos.

Dentre os tais ídolos de Bacon ídolos está o Idola Theatri, uma crítica fundamental para a substituição do raciocínio silogístico para o raciocínio indutivo, e a consolidação de um conhecimento "certo" e "verdadeiro", pois propõe que o conhecimento deve ser alcançado através de um método ordenado, indutivo e passível de verificação empírica. Entretanto é somente com Kant que a filosofia atinge esse grau de coerência interna entre as formas de ordenação do pensar em relação à experiência, e consegue estabelecer uma correlação entre a verificação empírica e a razão.

É sobre a questão da Experiência que outro autor, David Hume, com seu ceticismo empiricista, apresentado em Tratado sobre a natureza Humana, realiza as críticas mais contundentes à Metafísica ainda presente nas idéias inatas do Racionalismo e ao procedimento da Causalidade, aquela operação metodológica fundamental para o Racionalismo. Segundo Hume a relação entre causa e efeito só é possível pela através de uma observação humana induzida, pois só experimentamos uma seqüência de percepções. Portanto a relação causa-efeito é uma suposição que nunca poderá ser experimentada. E para os empiricistas, herdeiros de Bacon, todo conhecimento só pode nascer da experiência. O processo de dedução, que se orienta a partir de sentenças particulares, possibilitadas pela experiência, é, portanto fundamental para o Empiricismo.

Newton será um grande influenciador de Kant no campo do empiricismo ao desenvolver uma física matemática, empiricamente demonstrável, nos seus estudos sobre o movimento dos corpos. Pois é em Newton o conhecimento atinge dois patamares fundamentais para o pensar científico: a necessidade (é assim e só assim) e a universalidade (conservadas as variáveis, sempre será assim).

Revolução no modo de pensar em Kant: A síntese entre Racionalismo e Empiricismo

A principal contenda que se estabelece entre Racionalismo e Empiricismo é a origem desse conhecimento certo. Qual é a origem objetiva do conhecimento, ou ainda, qual é a origem do conhecimento objetivo? A objetividade está na experiência? Ou na Razão das idéias inatas, já presentes na natureza?

Como já dito antes, Kant estava interessado em estabelecer algum tipo de ciência definitiva, que garantisse a verdade do conhecimento, por entender o pensamento moderno como razão humana. Interessava a ele definir a objetividade do conhecimento, uma vez que a humanidade, a partir do esclarecimento havia atingido um novo patamar. Com uma simples frase pode-se resumir a revolução no modo de pensar, empreendida por Kant: “Toda experiência deve se referir ao conhecimento”. Kant inverte a sentença Empiricista e mostra que eles não eram tão opostos assim (Chauí, Marilena. Apresentação de Crítica à Razão Pura). Portanto, de Kant em diante toda experiência será racionalizada (reduzida a a forma do método científico) ou não se tratará de um ciência. E como uma experiência é racionalizada? O próprio Kant nos diz que "Em cada teoria particular da natureza há tanta ciência autêntica quanto nela se encontre matemática", pois assim se torna possível a identificação de leis e fatos irrefutáveis.

Esse postulado está naturalizado na nossa forma de pensar o mundo, mas deve entendido como uma construção histórica e, portanto, não a única possível. A noção de busca de leis naturais objetivas está orientada por uma condição historicamente produzida de pensar e viver: as formas sociais fundamentais do capitalismo. Nossa prática social moderna é que exige que pensemos assim, o que nos permitirá dizer que essa forma de pensar não é ontológica ou da natureza do homem, é histórica e pode desmororar junto com o colapso do sistema produtor de mercadorias.

A metafísica do Real em Marx

O Método Transdcendental

Kant vai desenvolver um sistema filosófico para estabelecer os rumos dessa racionalização. A categoria central desse sistema é o Juízo Sintético, que é o levantamento de uma hipótese (Sentença Geral) que apresenta um conceito de predicado inexistente no conceito de sujeito. E qua ainda por cima essa sentença apresente-se universalmente e necessária. Vamos explicar por partes.

Por exemplo, dizer que a bola é vermelha contém um conceito de predicado (vermelho) que não está contido no conceito de sujeito (bola).

Mais ainda nos faltam a necessidade e a universalidade:

- Toda bola é vermelha é um juízo necessário, pois todo conceito de sujeito deve conter o conceito de predicado.

- A universalidade pode ser atingida definindo-se as variáveis que garantiriam a universalidade da afirmação:

Nesta sacola, toda bola é vermelha.

Esse é um juízo sintético a posteriori, pois dependeu de uma experiência. Eu tive que olhar a sacola e perceber que nela todas as bolas são vermelhas. Os juízos sintéticos a posteriori são importantes, mais ainda não reside neles o fundamento da ciência.

Para Kant devemos ser capazes de estabelecer juízos sintéticos a priori, ou seja, que não dependem da experiêcia.

A menor distância dois pontos é a reta

Esse é um juízo sintético a priori.

Os juízos sintéticos a priori são importantes porque são amparados por um conhecimento objetivo abstrato (matemática) e ainda assim são passíveis de verificação empírica.

Esse método em Kant é definido com Transcendental, pois deseja transcender os juízos analíticos, aqueles que contém somente uma afirmação presente no próprio conceito de sujeito. Por exemplo, em “a bola é redonda” o conceito de predicado (redonda) já está presente no conceito de sujeito. (bola)

Esse procedimento do pensar de uma sentença geral objetiva que permite descobrir uma sentença particular e contingente e vice-versa, através da relação entre juízos sintéticos a priori e a posteriori, é a definição mais clara do método dedutivo-indutivo, base dura do pensamento científico moderno.

“Em suma: a uma certa faculdade no primeiro sentido da palavra (faculdade de conhecer, faculdade de desejar, sentimento de prazer ou de dor) deve corresponder uma certa relação entre faculdades no segundo sentido da palavra (imaginação, entendimento, razão). E por tal motivo que a doutrina das faculdades forma um verdadeiro entrelaçamento, constitutivo do método transcendental”. (p.18).

Uma Crítica imanente, a razão como juiz da razão, tal é o princípio essencial do método dito transcendental.(p.11)

Kant e a crítica do pensamento Moderno [terminar]

Para Robert Kurz a formação do pensamento moderno tem suas raízes em uma objetividade histórica e socialmente construída. A imposição do sistema produtor de mercadorias necessita de um correlato no plano da consciência, uma vez que é imprescindível para a sua realização, a naturalização da forma-valor. A forma-valor é portanto uma obejtividade que orienta tanto a prática social da produção tautológica do valor através do trabalho abstrato, quanto a forma-pensamento inconscientemente objetiva.

“Trata-se, portanto, de Kant no estado da sensualidade, isto é, da dizimação de tudo que seja vivo e não consiga encaixar-se na abstração do valor”.

“Trata-se de uma teoria negativa, a construir para ela própria ser ultrapassada e tornada redundante, e já não do estabelecimento legitimador de um novo princípio positivo (semelhante à abstração capitalista do valor), segundo o qual tudo se deveria moldar“.

Kurz, Razão Sangrenta - 20 Teses contra o assim chamado Iluminismo e os "valores ocidentais, 2002).


Erro na atualização do sistema
O Sistema encontrou um erro fatal e será finalizado. A sociabilização capitalista se reproduz negando seus fundamentos. O nosso Sistema também encontrou uma limitação na forma de pensar o mundo dentro dos parâmentros modernos. Estamos diante de uma limitação objetiva, tanto para a prática quanto para o pensamento: ou essas Formas se implodem ou se transformarão radicalmente.

Glossário

Análise: Pappus de Alexandria, em 390 d.C., no seu Opus Magnus, estabelece o conceito matemático da palavra analytikós: os elementos desconhecidos de uma teoria são construídos com base nos elementos desconhecidos; e o todo é constituído de partes que se organizam em uma totalidade coerente e lógica. Para a ciência se trata do procedimento de divisão de uma totalidade a fim de que o todo possa ser analisado em suas partes. O procedimento de recomposição das partes é a síntese.

Método Científico: Trata-se de um conjunto de procedimentos mentais que conduz a ação científica para a busca de um determinado resultado pré-estabelecido. É a forma como o raciocínio é organizado para abordar o objeto. O método dedutivo-indutivo é o núcleo duro do método científico moderno.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O Fetiche da Mercadoria

Allan Cob
A alienação é um conceito filosófico fundamental para o pensamento crítico da sociedade moderna. Pois é a partir dele que Karl Marx desenvolve a idéia de Fetichismo da Mercadoria. Portanto, se faz importante entender a história da formação conceitual de ambos para situarmos uma leitura possível do pensamento crítico marxista.

Podemos encontrar três momentos importantes para o desdobramento do Fetiche da Mercadoria, previamente desenvolvido por Marx em Georg Lúkacs(1923), Guy Debord (1967)e Robert Kurz (1993). Vamos a cada um para mostrar como esse resgate conceitual foi realizado ao longo do século XX para explicitar uma leitura possível do Fetiche da Mercadoria no próprio Marx.
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Lukács, Retomando o Fetiche
Após a realização da primeira reunião da Komintern organizada por Lenin em 1919, Karl Korsch e Georg Lúkacs percebem a palidez filosófica em curso nos debates dirigidos pelo Partido Comunista. Esses encontros apontavam na direção do Socialismo Científico Evolucionista e do pragmatismo de "O que fazer?", influenciado principalmente pelos últimos escritos de Friedrich Engels. Em textos publicados ao longo da década de 1920 Lúkacs e Korsch resgatam a lógica dialética e mostram como Marx havia sido tributário dos desenvolvimentos teóricos de Hegel. Mais do que isso, se capacitam a levar adiante os desenvolvimentos teóricos de Marx.
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A seguir apresentamos um pequeno esboço do pensamento hegeliano para situar o resgate empreendido em História e Consciência de Classe(1923) e a aproximação aos conceitos de alienação e fetiche empreendidos nesse livro por Lúkacs.

O filósofo Georg Wilhelm Hegel (1170-1831), a partir da tradição do pensamento Idealista Alemão, desenvolveu um sistema filosófico para estabelecer a verdade sobre a relação entre sujeito e objeto, entre a mente e a natureza, entre a Idéia e a Matéria. Neste sistema filosófico, conhecido como Idealismo Hegeliano, a Matéria é entendida como realização de uma Idéia prévia, originária no Espírito Absoluto (Geist), posto fora do Homem, a Razão Universal:
“a existência do homem tem o seu centro na cabeça, ou seja, na razão, sob cuja inspiração ele constrói o mundo da realidade”(Hegel, Works).
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A inspiração para as construções materiais humanas viriam das Artes e da Religião. A partir dessa concepção, tributária do Idealismo Alemão e do Racionalismo, Hegel realiza um profundo esforço de sistematização de uma lógica dialética, que diferentemente da lógica formal, consideraria a contradição de forma imanente à sua própria lógica: os elementos contrários lutam entre si mas compõe uma unidade, sem se excluir. A idéia de luz está presente, como ausência de luz, na idéia de escuridão. A unidade dos contrários compõe uma totalidade que submete a ambos.
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O movimento da História Universal para Hegel, determinado por esse Espírito Absoluto seria, portanto, o movimento de realização da Razão Universal. Nesse movimento de auto-realizaçao do Geist, o Homem deveria passar diversas fases de compreensão do Real, também chamadas de alienações. O desdobramento do Geist seguiria até atingir uma fase de autoconsciência que lhe permitiria ao Homem analisar o mundo e ordenar as próprias ações (McLellan, p. 69). Esse momento coincidiria com a realização do Estado.
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Para Hegel no momento de superação de cada fase de consciência, estariam contidos elementos das fases que as haviam precedido. Esse movimento que suprime e conserva, foi definido pelo termo aufhebung (no alemão aufhebung se refere aos dois termos suprimir e conservar).
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Tudo isso parecia ter sido esquecido pelos participantes das Internaiconais Comunistas que insistiam em reduzir o Marxismo à uma doutrina científica. Nesse percurso Lúkacs encontra a noção de Fetiche da Mercadoria como um elemento importante para realizar uma crítica da relaçao entre a teoria e a prática empreenedida no partido comunista soviético. Também influenciado pelas críticas de Weber e Durkheim a burocracia, Lúkacs desenvolve a sua teoria do proletariado como o idêntico sujeito-objeto da História como uma crítica ao partido comunista. O proletário é objeto da relação social capitalista e tem potência de se emancipar enquanto sujeito na medida em que toma consciência dessa relação de reificação (de transformacao em objeto). Sem entrar no mérito da teoria de Consciência de Classe (que julgamos ainda Hegeliana, no sentido de entender o Proletário como o Espírito Absoluto hegeliano, que contém em si o elemento necessário a sua superação enquanto proletário) Lukács teve que enfrentar o problema do Fetiche da Mercadoria se quisesse pensar a possibilidade de tomada de consciência da realidade social capitalista por parte dos proletários porque é exatamente esse o problema ao qual Fetiche remete. De uma maneira simplificada (que aprofundaremos a seguir) o fetiche da mercadoria é a a condiçao de sociabilizacao entre os homens no capitalismo que os submete a se relacionarem através da mercadoria. Os homens assumem a forma da mercadoria e a mercadoria assume uma condição de sujeito do processo histórico. Lukács percebe e entende essa questão. E propõe a consciêcia de classe como superaração dessa condicão objetiva da relação social no capitalismo. Aqui reside o principal erro de Lúkacs na questão do Fetichismo da Mercadoria: ele não percebe que o Fetiche da Mercadoria não é só uma questão de fundo, um véu que incobre a realidade dificultando a apreensão da essência pela sua aparência fetichizada. Mais do que isso, o Fetiche da Mercadoria remete a questão da produção fetichizada do conhecimento na sociedade capitalista e aponta para o problema da consciência no capitalismo ser uma representação fetichizada de consciência, uma forma de insconciência do processo social que se coloca como consciência, decorrentes da inversão entre subjetividade e objetividade determinada pela mercadoria. Além disso o fetiche da mercadoria remete a uma condição objetiva: mesmo com a tomada da consciência das relações reificadas (que submetem homens a se trocar como mercadorias e a se sociabilizar através delas) a relação não necessariamente é superada. Em outras palavras, podemos até saber que estamos nos relacionando como mercadorias, mas isso não é suficiente para superar objetivamente essa forma de relação.
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Debord e A Sociedade do Espetáculo
Na década de 1960 Guy Debord presencia o estabelecimento da indústria cultural, analisada por Theodor Adorno e Horkheimer, herdeiros do Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt que havia se estabelecido, ao menos teoricamente, graças aos primeiros passos dado por Korsch e Lukacs na década de 1920. O trabalho de Debord, ao contrário do que faz crer a mesma ind~uistrial cultural que insiste em reduzí-lo a uma teoria da mídia, é muito bem fundamentado filosoficamente na tradição do pensamento crítico. Debord também atravessa a questão fundamental da alienação e culmina em 1967 com a publicação de A sociedade do Espetáculo.

A partir de influências de Marx e Lukács, Guy Debord volta a se deter sobre a questão a alienacao e do fetiche, com o seu conceito de Espetáculo: uma forma superior de alienação atingida no capitalismo maduro.

O espetáculo é uma forma de alienação mais abstrata que as alienações anteriores. O Espetáculo se refere à passividade do sujeito-espectador, que tem seu trabalho separado da vida e das formas de percepção do mundo, cindidas em esferas autonomizadas. O Espetáculo é a vida separada da sua realização, que é colocada fora do homem, no consumo de imagens externas que unificam a vida humana através de uma contemplação mundial simultânea.

Se Marx e os Jovens Hegelianos haviam entendido o trabalho alienado como uma alienção em que o “ser” do homem é alienado em “ter” na medida em que o produto do trabalho é separado do trabalhador (quando se estabelece a propriedade privada dos meios de produção), o espetáculo é uma nova alienação do "ter" para o "aparecer" conforme a condição de sujeito é reduzida ao espectador consumidor de imagens. Essas imagens representam uma unidade que mantém cindida toda a vida humana. O sujeito passivo e espectador consome essas imagens para recompor uma totalidade fetichizada de uma vida totalmente dilacerada e cindida pela mercadoria. O mais importante dessa perspectiva é que ela não reduz o problema da alienação à propriedade privada dos meios de producao, e sim encontra na mercadoria, a célula germe do capitalismo, o elemento que fundamenta todas as demais alienações, por estabelecer o fetiche da mercadoria tanto como condição objetiva de sociabilização quanto como forma de produção de uma consciência fetichizada. A consciência fetichizada procura entender como vontade social o cumprimento de uma objetivdade que lhe é determinada objetivamente pela mercadoria. Em outras palavras, consciência, ideologia, são formas de personificação de uma necessidade objetiva do capitalismo como se necessidades sociais fossem.

Cena do Filme Metropolis, 1928, de Fritz Lang.


Em relacao ainda aos jovens hegelianos cabe dizer que em meados do século XIX autores como como Marx, Feuerbach e Bauer, viriam a realizar uma crítica do Idealismo Hegeliano e do Estado. Para isso iniciam uma critica da alienação religiosa, transposta, como alienação do Estado, (checar Jappe para melhorar isso) e dão início à uma crítica materialista ao Idealismo Hegeliano. Nestes termos, coube a Marx realizar a crítica mais profunda de Hegel, principalmente em a Critica da Filosofia do Direito de Hegel e no próprio Capital, mas que não é possível aprofundar aqui.

Marx, Alienação, Materialismo Histórico

Marx, nos trabalhos de juventude, como nos Manuscritos Econômicos-Filosóficos viiria a se debruçar sobre outras duas formas de alienação da sociedade moderna: o trabalho e o dinheiro. O movimento do pensamento de Marx nesta obra vai da exposição do trabalho como um duplo: o trabalho estranhado, alienacao da natureza humana do ser em ter pela propriedade privada, e como mediação entre o homem e natureza (conceito trans-histórico, ontologico) e portanto como meio de realização da humanidade do homem. Essa oposição dialética do trabalho será um fundamento filosófico importante para o método desenvolvido finalmente em A ideologia Alemã, chamado de Materialismo Histórico. O tratamento do trabalho como atividade essencialmente humana é um problema enfrentado mais recentemente por Robert Kurz e voltaremos a essa questão mais a frente.

O materialismo histórico é o método por excelência de Marx, que parte da análise dialética da relação entre forças produtivas (meios de produção) e relações sociais de produção (a relação entre capital e trabalho). Entretanto essa própria análise marxista pode ser submetida à crítica marxista do Fetiche, na medida em que as categorias objetivas da análise, apesar de se mostrarem como derivadas das formas objetivas de existência, são a sua representação fetichista. É o que mostraremos no último tópico deste texto.Como diria Karel Kosik, outro filósofo que também vai ser deter sobre a questão da reificação em a Dialética do Concreto, já no século XX, um mundo pseudocrecreto.
Fetiche da Mercadoria e Crítica da Teoria do Valor
A abordagem de Robert Kurz
Com a crise da 3ª Revolução Industrial e o colapso do leste europeu que Robert Kurz pôde chegar à idéia de dominação impessoal e a crítica da Ideologia. Conforme descrito por Kurz, o fetichismo da mercadoria recoloca a questão do conhecimento da sociedade e as possibilidades de organização efetiva das ações humanas através da razão, conforme anunciava o idealismo hegeliano. Fetichismo é o estado social em que a sociedade não tem consciência de si mesma, não penetra nem organiza diretamente na prática sua própria forma de sociabilização, mas sim tem que “representá-la” simbolicamente em um objeto externo. Da mesma forma, as ideoloias serão formas representações mais do que conhecimentos objetivos.


Robert Kurz, no livro colapso da Modernização traz no glossário a definicação do termo Fetichismo da Mercadoria:

Fetichismo é um conceito que se origina na crítica da religião do século XVIII, sendo considerado uma característica essencial de religiões “primitivas”. Fundamentava-se nas observações de colonizadores portugueses na África e servia para designar uma crença que imagina em objetos mortos uma alma e forças sobrenaturais”. Marx referiu esse conceito ironicamente à moderna sociedade produtora de mercadorias, que se sujeita a um fetichismo análogo na forma do dinheiro e de seu movimento de exploração em empresas. [...] Marx não quer ressaltar o fato de que à objetos em geral podem ser atribuídas forças sobrenaturais que nada tem a ver com a sua existência natural, mas sim caracterizar um estado social em que a sociedade não tem consciência de si mesma, não penetra nem organiza diretamente na prática sua própria forma de sociabilização, mas sim tem que “representá-la” simbolicamente em um objeto externo. Esse objeto (que também pode ser animado) assume então um significado sobrenatural que não é idêntico a sua forma externa, mas que aparece através desta. Em virtude desse significado adquire ele, apesar de sua banalidade material, poder sobre todos o membros dessa sociedade. Um etnólogo diria talvez que o totem constituiria uma analogia mais adequada. Nos modos de produção asiáticos, o Filho de Céu ou o Imperador Divino assume essa função, e no feudalismo o solo. O dinheiro, como umas das muitas formas do fetichismo, existe em todas essas sociedades, mas ainda não possui a função geral de representar a sociabilização inconsciente, que adota outras formas. Somente na modernidade assume o dinheiro definitivamente essa função. Por isso, pode ser designado como totemismo objetivado e secularizado da modernidade. Não é à toa que tem suas raízes no âmbito sacral, fato que quase sempre ressaltam os apologistas do moderno sistema produtor de mercadorias, sem refletir o que estão dizendo com isso. Somente em conexão com sua crítica do fetiche mercadoria e de sua forma de manifestação, como dinheiro pode-se compreender por que para Marx a modernidade ainda faz parte da “pré-história da humanidade”. Pois cabe dizer, numa inversão daquela perspectiva etnológica que se recusa a chamar de “primitivas” as culturas muito antigas e os povos incivilizados, que também o sistema produtor de mercadorias da modernidade é ainda uma sociedade primitiva. (Robert Kurz, Glossário de O colapso da Modernização)
Conforme descrito por Kurz, o fetichismo da mercadoria recoloca a questão do conhecimento da sociedade e as possibilidades de organização efetiva das ações humanas através da razão, conforme anunciava o idealismo hegeliano. Fetichismo é o estado social em que a sociedade não tem consciência de si mesma, não penetra nem organiza diretamente na prática sua própria forma de sociabilização, mas sim tem que “representá-la” simbolicamente em um objeto externo.
Da mesma forma, as ideoloias serão formas representações mais do que conhecimentos objetivos.
Em relacao a questao da crítica do trabalho como ontologico, ou seja, como atividade essencialmente humana, que estabelece o nexo da relação entre sociedade e a natureza podem ser encontrados argumentos importantes no panfleto intitulado Manifesto Contra o Trabalho, publicado pelo Grupo Krisis do qual Kurz fazia parte na décado de 1990.O principal argumento reside na crise imaneten do capital que se refere à necessidade constante de ampliar as suas forças produtivas, diminuindo exponencialamente a necessidade de trabalho vivo. A composição orgânica do capital (essa proporca entre o trabalho vivo e as maquinas) entra em um estágio crítico com a terceira revolucao cientifica, com a microeletronica e automatizacao dos processos produtivos. Nesse contexto a dispensa do trabalho atinge um grau nunca antes visto e coloca a possibilidade de valorização do valor através do trabalho em questionamento. Como se não bastasse a generalização da acumulação de capital na esfera financeira se esforça constantemente por se desprender da esfera produtiva criando um modo de acumulação totalmente fictício no qual a quantidade de trabalho é irrisórioa. Em outras palavras o trabalho, como fundamento da valorização do valor na sociedade capitalista mostra-se incapaz de se reproduzir ampliadamente infinitamente na medida em que cada processo de produção amplia a sua crise. Ao mesmo tempo o trabalho (a forma-mercadoria como nexo social) nunca esteve tão generalizado como meio de sociabilização. Para se sociabilzar no capitalismo é necessário que se faça através do trabalho, apesar de sua crise.


O caráter fetichista da Mercadoria e seu segredo


O conceito de Fetichismo da Mercadoria, é abordado diretamente por Marx no item 4 do capítulo 1 de O Capital. Neste tópico Marx vai tratar da outra alienação tipicamente moderna, a alienação do dinheiro, através da forma mercadoria.

Entender a crítica do fetiche depende da exposição da inversão entre sujeito e objeto que ocorre no mundo moderno. Acontece que Marx, no abominado item 4 do capítulo 1 de O Capital nos mostra o movimento de sociabilização através da forma-mercadoria como uma relação entre produtores de mercadorias que adquire a forma de uma relação de produtos do trabalho, enquanto a relação entre os produtos do trabalho adquirem a forma da medida do dispêndio de trabalho humano.
A igualdade dos trabalhos humanos adquire a forma [objetiva da igualdade] de valor dos produtos do trabalho; a medida do dispêndio da força de trabalho humana, pela sua duração, adquire a forma de grandeza de valor dos produtos do trabalho; finalmente, as relações entre os produtores, nas quais se afirmam as determinações sociais dos seus trabalhos, adquirem a forma de uma relação social dos produtos do trabalho. (Karl Marx, O Capital).
O Fetichismo da Mercadoria se opera através de uma inversão de papéis entre homens e mercadorias. As mercadorias podem se relacionar socialmente através da troca, momento em que todas as suas qualidades são abstraídas, ou seja é operada uma abstração (eliminação) das suas diferenças (pois sapatos e calças são diferentes) para que seja possível a troca de 2 mercadorias diferentes de acordo com um critério que as iguala e as mede comparativamente e determinar quanto uma vale em relação à outra de acordo com a quantidade de trabalho socialmente necessária para a sua produção. Essa proporção, quanto uma mercadoria vale em relação à outra é chamada de quantum1. Em contrapartida os homens se relacionam através das mercadorias, que passam a representar ‘características objetivas dos próprios produtos do trabalho, como se fossem propriedades sociais inerentes a essas coisas'. A relação social através da forma-mercadoria é a relação social coisificada chamada também de reificação.
Dado que os produtores só entram em contacto social pela troca dos seus produtos, é só no quadro desta troca que se afirma também o carácter [especificamente] social dos seus trabalhos privados (Marx, O Capital.)
A partir de uma filosofia da história desenvolvida principalmente em A Ideologia Alemã e as Teses sobre Feuerbach, Marx dá as bases ao Materialismo Histórico, método de investigação que muitas vezes foi utilizado como simples contraposição entre as formas de existência objetivas da realidade às formas objetivas de pensamento. A idéia de que as superestruturas (Ideologias e Instituições como o Estado) são derivadas das estruturas (a dialética entre forças produtivas e relações sociais de produção). Ou como se as formas de consciência do mundo fossem a objetivação da realidade material.

Mas o que acontece se pensarmos o Materialismo Histórico à luz da crítica do Fetichismo da Mercadoria?

Com o conceito de Fetichismo da Mercadoria, conforme expusemos, Marx nos mostra a inversão que é operada pelo capitalismo entre sujeitos e objetos. Como pode ser possível uma construção objetiva de conhecimento em uma sociedade em que os sujeitos são objetos e os objetos são sujeitos? Em outras palavras a forma como entendemos o mundo é fruto de uma relação material objetiva que pode ser atingida por meio de categorias positivas? Até que ponto as formas de apreensão da realidade (ideologias, burguesas ou proletárias) não são somente uma representação fetichista de mundo, que põe em movimento uma mesma forma de reprodução tautológica do mundo através da forma-mercadoria?


Bibliografia - terminar a bibliografia.
Jappe, Anselm. Guy Debord.
Debord, Guy. A sociedade do Espetáculo.
Kurz, Robert. O Colapso da Modernização
Kurz, Robert. Dominação sem sujeito
Marx, Karl. O Capital
Marx, Karl. A ideologia Alemã
Marx, Karl. Teses sobre Feuerbach
McLellan, David. O conceito Materialista de História. in Hobsbwn, Eric. Marxismo na História. Vol. 7

_________________________________________________________________________
Nota 1: Seria impossível desenvolver uma tabela para relacionar quanto cada mercadoria vale em relação às outras. É aí que se faz necessária a forma-dinheiro, que se coloca como um equivalente geral de trocas, que tem como essência a medida de trabalho socialmente necessário contida nas mercadorias. Entretanto o dinheiro também assume a forma de uma mercadoria que pode ser comprada e vendida como qualquer outra (vende-se dinheiro a prazo na forma de crédito).Em uma relação mediada por dinheiro, ele se coloca como representação de trabalho (aparência) que vai buscar realizar a fundamentação do valor que ele representa, e portanto a realização do trabalho.

domingo, 23 de novembro de 2008

Por que um (Ser)tão Racional?

No Morro da Garça, no meio do Vale do Rio das Velhas, vive Maria Xonada, benzedeira. Do falecido marido herdou pouco mais que o apelido sarcástico. O povo o tinha por Apaixonado, e Maria Apaixonada quedou ela. O que uma visita à casa de uma benzedeira idosa no meio do Sertão de Minas Gerias pode ajudar nas tentativas de compreender um particular da imposição imperativa do processo de modernização?























Maria nasceu em um tempo/espaço em que o acesso a Medicina Científica era esparso e casual. Da relação entre cristianismo e necessidades de cura nas comunidades em que viveu, criou-se um amálgama, o curandeirismo cristão: arte, magia e técnica de cura. Seus pacientes ou fiéis eram vizinhos e parentes. Quando a procuravam eram submetidos às suas preces para logo se encontrarem bem dispostos.


O processo onírico de aprendizado das rezas constitui uma forma cultural singular: a Benzedeira cria uma prática a partir das possibilidades quase extenuadas de sobrevivência, e encontra nos seus sonhos um mecanismo de afloramento de uma possível mediação entre o conflito social e o seu lugar na comunidade. A Ética comunitária exige, portanto, a constituição de um conjunto de costumes coletivos no que se refere ao tratamento dos problemas de saúde, nesse caso não cindidos entre o físico e o espiritual ou entre indivíduo e sociedade. As frases surgiam espontaneamente e ela jamais as esqueceria. Incentivada por sua mãe, decidiu que esse dom deveria ser posto a serviço do povo e iniciou suas bênçãos ainda menina.

O processo de modernização, que, diga-se de passagem, traz consigo a imposição de uma racionalidade instrumental, da ciência positiva, ainda que de forma não simultânea, atingiu o Morro da Garça e trouxe efeitos sobre práticas como a que ora apresentamos. Pois houve um dia em que Dona Maria foi chamada na cidade para que realizasse uma reza para alguém importante, uma persona do mundo racional: o médico. Ao se deparar com ele, a Curandeira, nervosa, esqueceu todas as frases que compunham suas preces e voltou para casa desolada.

O mundo moderno expropriou dela a possibilidade e a capacidade de cura, substituídas pela medicina moderna, muito mais produtiva. A chegada do posto de saúde, das farmácias e de médicos, trazem consigo objetos que carregam as forma modernas, estas nunca dissociadas dos conteúdos que lhe são correspondentes. Forma-Conteúdo que impõe novos ritmos e, sobretudo novas racionalidades à vida social. A curandeiria perde seu lugar na prática social coletiva no Morro da Garça, substituída pela medicina moderna pagã e racional, e o Morro da Garça perde sua condição de sociabilização coletiva em direção à moderna divisão social do trabalho. Das relações comunitárias às relações societárias.

Um conflito se estabelece envolvendo as formas de subjetivação do processo de racionalização instrumental no qual a existência de Dona Maria é descartada como produto obsolencente. Muitos que vão à sua procura em busca de curas são definidos como saudáveis pela Curandeira. Se furtar a enxergar os males que portam os doentes é uma forma sutil de entender que sua prática não é mais necessária (e a busca pela cura que faz voltar para casa os doentes sem benção, pode significar que tanto a curandeira quanto as pessoas que a procuram ainda estão perdidos em meio às transformações impostas pelo processo de modernização).

Dona Maria e os benzidos aceitam (pois é só o que podem fazer) que a Medicina substitua essa prática. Mas não de forma resignada, pois para Dona Maria, o moderno só pode ser incorporado caso a medicina pagã seja sacralizada:

"O médico cura, é muito bom. Mas só cura se Deus permitir"

Na imposição totalitária das formas modernas trava-se um embate entre razão sensível (representada pela cura religiosa) e razão instrumental (medicina moderna). O resultado é claro: formas modernas instrumentais padronizadas substituem o singular da existência dos lugares e dos sujeitos.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

O Cidadão Negativo

Como mais um efeito do relativismo pós-moderno, os conceitos têm se esvaziado. Mas no caso deste singelo termo, democracia, podemos dizer seguramente que nunca foi realmente preenchido, dado a sua capacidade semântica potencial. A Democracia apresenta uma negatividade historica em relacao as possibilidades de suas realizacao conceitual. Hoje cabe a nos discutir quais sao os limites para a apreensao do mundo atraves de uma ideologia democratica: ate que ponto esta apreensao restringe o olhar e o fazer sobre a realidade?

O tal de Clístenes, ateniense, um senhorzinho muito do sabido, encontrou uma forma política que expandisse os direitos à todos os cidadãos, e foi o governo que mais se aproximou de uma sociedade humanista em toda a Antiguidade. Mesmo definindo que as mulheres não eram cidadãs, tampouco escravos ou estrangeiros.

Um exemplo das ascepções esdrúxulas que nosso termo vem ganhando pode ser encontrado na postura imperialista estadunidense, que se apropria da idéia de democracia para dar conta das crises de superprodução de sua indústria bélica e levar a cabo o projeto de homogeneização cultural. Em outras palavras formar consumidores bem comportadinhos e previsíveis.

Já o visionário Serj Tankian, vocalista da banda System of a Dowm, encontrou a sua forma específica de falar sobre a democracia-imperialista estadunidense. Este é o videoclipe da música The Unthinking Majority (A maioria não-pensante), seguindo da tradução da letra para português.

Nós não precisamos das suas democracias
Executem-nas amavelmente pra mim
Peguem as menores narinas sujas
Ponham-nas acima, em pensões caninas
Nós não precisamos da sua hipocrisia
Executem a real democracia
Sociedade
pós-industrial
A maioria não pensante
Anti-depressivos
Ferramentas de controle do seu sistema
Fazendo a vida mais tolerável
Eu acredito que você esteja errado

Insinuando que eles seguraram a bomba
Abrindo o caminho para a brigada do petróleo

Isso sem falar na Mafalda, linda:
Outro momento democrático muito interessante foi apresentado pela revista Le Monde Brasil, na reportagem Bolivia: Revolução sem revolução, de abril de 2008.

Os autores apresentam o quadro político boliviano, em suas tentativas de reformas . Para encurtar o caso, as elites agroindustriais da Media Luna, (leste boliviano, composto pelas províncias de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando) conseguiram impedir, por meio de instrumentos legais (democráticos), as tentativas de uma possível reforma agrária.

Um exemplo da pratica discursiva liberal, que cinde economia e politica naturalizando as apreeensoes sobre a realidade. Entendemos que o instrumental juridico e legislativo sao construidos de forma a serem ferramentas de gestao de uma formacao economico-social que se reproduz em crise (Economia e Politica nao estao cindidas na forma moderna de reproducao do Estado). O que se chama de democracia neste caso nao passa de um castelo burocratico que orienta a sociedade inteira a partir da forma-valor, da adequacao de uma Economia "nacional" aos padroes de produtividade internacionais, por meio do Estado.

Democracia: Um consenso silencioso.

O motivo deste post surgiu, entre outros motivos, ao ler um texto de Saramago. Ele é uma espécie de combatente do silêncio, imposto quase que expontaneamente no mundo todo, à discussão do conceito de democracia. Disse ele assim: no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em 2002:

Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder econômico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo."

No post anterior questionei a possibilidade de formação do indivíduo, no que Bernard Stiegler chama de período hiperindustrial. Neste post aqui pergunto: mas e cidadãos, podemos ser? Quais sao as possibilidades de afirmacao de uma sociedade cidadã? Em contrapartida, quais os limites de apreensao do mundo atraves da optica iluminista da cidadania? Qual e a negatividade do cidadao?

O Cidadao Positivo
Discutir Democracia, de forma positiva, em nossos dias tem relação direta com o que entendemos por cidadania, o lugar da existência, o espaço do vivido e a possibilidade de práxis nas territorialidades nas quais os conflitos do cotidiano estão postos. O Espaço do Cidadão é um livro que coloca estas questões no cerne da discussão. Recentemente re-editado pela EDUSP, Milton Santos discute o cidadão, contrapondo ao consumidor. Será que o consumidor sabe pensar como o cidadão? Sabe agir, existir, atuar, praticar ou todas as suas ações são mediadas pelo consumo? O movimento do pensamento de Santos vai no sentido de realizar conceitualmente a democracia através da positivacao do cidadao em contraposicao ao consumidor, de certa forma amparado por uma concepção positiva de direito.

A cada dia somos menos cidadão e mais consumidores. Talvez tenha sido este prognóstico que tenha levado Santos a reafirmar a cidadania de forma positiva. Nós não sabemos que perguntas fazer sobre a nossa democracia, entre tantas possíveis. Não é de se estranhar que saibamos todos os procedimentos indicados caso necessário seja exigirmos nossos direitos de consumidor? Será que em relação aos direitos do cidadão temos que fazer algo além de exigí-los, como se simplesmente o hamburguer da democracia estive frio e tivéssemos que ir ao balcão exigir a troca do significado do conceito? Sabemos fazer algo além de exigir dos nossos ultra-representantes? Como age um cidadão? É possível pensar no conceito de cidadania realizado na forma ideal? Até que ponto os processos de alienação e reificação tomaram conta das possibilidades de relfexão profunda sobre o estado das coisas?

Ademais, qual é o preço de se reinvindicar o Direto Positivo do Cidadão nas franjas de Instituições como o Estado Nacional Territorial?

Entendemos que para refletir sobre essas questões, devemos criar um parâmetro negativo; o não-cidadão ou o cidadão negativo, afim de tornar a discusão mais abrangente.

O Cidadao Negativo
Pensar o negativo do cidadão nessa sociedade moderna específica, mediada pela forma-valor, trata-se do último ponto deste post. Assim pode ser possível delimitar limites objetivos da cidadania, exercida por um sujeito que pratica uma democracia negativa - entendida como subtotalidade política do moderno sistema produtor de mercadorias, determinado a se reproduzir por de uma forma social específica.

Neste sentido, a contribuição de Robert Kurz é muito importante em dois aspectos. Em primeiro lugar resituar o papel do Estado moderno, como construção histórica ideológica, organizador da vida social e econômica moderna, normatizador de relações de mercado e concorrência, gestor da reprodução crítica do capitalismo contemporâneo, peça fundamental do sistema produtor de mercadorias.

Em segundo lugar resituar um paradigma:

"As ideias iluministas centrais de 'liberdade', 'igualdade' e de 'autonomia-responsabilidade' do 'individuo autonomo' estão, segundo seu conceito, talhadas para a forma capitalista do sujeito do 'trabalho abstrato' (Marx), da economia empresarial, do mercado totalitário e da concorrencia universal. Liberdade e igualdade no sentido do Iluminismo foram sempre identicas a auto-submissão dos homens as formas socias do sistema capitalista."
(KURZ, 2004, A nova simultaneidade histórica.)


Para Kurz, qualquer movimento no sentido de repor a cidadania , em sua clássica relação com o Estado Nação, não passa da reafirmação da forma social do trabalho voluntário-compulsório e abstrato. Consequentemente, a redução da vida e de suas diferenças à desigualdades medidas pela forma-valor.

E aí? Você quer ser um cidadão?

domingo, 24 de fevereiro de 2008

O Ciclo do Caranguejo em "Do Caos à Lama"

O Mangue é um sertão pelo avesso.
O Mangue é Local que desabita a humildade para ser suburbana.
Afunda miséria no rio que não sabe se é gente ou cisco.
Manguezal é o poema selvagem das margens, esquecido na lama, estranhado, perdido no próprio país.
Tânia Lima


Josué de Castro, pernambucano de Recife, nascido em 1908, é referência importante em
temas como Geografia, Biologia Social e Nordeste. Mas a Fome foi verdadeiramente sua Força Social[1]. Josué escreveu A Geografia da Fome, inaugurando uma série de estudos sobre o Brasil, e orientando sua vida como combatente do silêncio imposto pela mídia e pelas universidades à fome em todo o mundo.


Viver próximo aos mangues de Refice contribuiu para sua formação cultural sensível, preocupada com os afogados neste mar da precariedade humana.

Francisco de Assis França, o Chico Science, tinha só dois anos quando Josué lançou seu único romance: Homens e Caranguejos. Em comum com o mestre, não só a origem geográfica, mas a legítima sensibilidade de um homem-caranguejo.


É a singular sensibilidade sobre a condição humana que une Josué e Chico nesta tentativa de leitura intertextual entre O Ciclo do Caranguejo, 1935, e Da Lama aos Caos, 1994.

No conto Ciclo do Caranguejo, arte e ciência confluem para descrever a relação entre Espaço e Homem, Caboclo e Mangue. A história é de Zé Luis e sua família, migrando do sertão pra cidade, e na cidade pra dentro do mangue.

A família Silva mora nos "mangues" da cidade do Recife, num "mocambo" que o chefe da família fez quando chegou de cima. A família é originária do sertão. Desceu do Cariri, na seca, perseguida pela fome. Fez uma paradinha no brejo, para tentar o trabalho das usinas, mas não se pôde agüentar com os salários dessa zona, sem ter direito a plantar senão cana. Sem ter, nem ao menos o recurso do xiquexique e da macambira, como no sertão, para quando a fome apertasse." [O CICLO DO CARANGUEJO, Josué de Castro]

Castro se apropria de características do movimento regionalista realista que tem como figura central Guimarães Rosa: compreender a realidade, o momento presente, as correlações entre homem e meio, a linguagem e a paisagem.

A leitura de Josué sobre a paisagem urbana é breve e crítica. Podemos ser levados a pensar com naturalidade o fato de não haver trabalho para Zé Luis na cidade. Mas só podemos entender essa condição se partimos da noção de mobilidade do trabalho (Marx e Gaudemar) para situramos o movimento migratório da Família como uma forma de expressão da mobilidade imanente ao trabalhador. Mobilizado para mudar de emprego, de cidade, de função, de carga horária ou período, enfim, mobilizado pela reprodução social capitalista a agir mais como um apêndice do maquinário do que de fato sujeito autônomo que escolhe seu lugar de destino.


A Família Silva é orietada, portanto, por uma mobilização forçada pela busca ao trabalho. Em condições tão expúrias que animalizam o ser humano e o prende à um conjunto de relações cada vez mais degradantes. Assim é o Mangue de Josué:
Os mangues do Capibaribe são o paraíso do caranguejo. Se a terra foi feita pro homem, com tudo para bem servi-lo, também o mangue foi feito especialmente pro caranguejo.Tudo aí, é foi ou está para ser caranguejo, inclusive a lama e o homem que vive nela. A lama misturada com urina, excremento e outros resíduos que a maré traz, quando ainda não é caranguejo, vai ser. O caranguejo nasce nela, vive dela. Cresce comendo lama, engordando com as porcarias dela, fazendo com lama a carninha branca de suas patas e a geléia esverdeada de suas vísceras pegajosas. Por outro lado o povo daí vive de pegar caranguejo, chupar-lhe as patas, comer e lamber os seus cascos até que fiquem limpos como um copo. E com a sua carne feita de lama fazer a carne do seu corpo e a carne do corpo de seus filhos. São cem mil indivíduos, cem mil cidadãos feitos de carne de caranguejo. O que o organismo rejeita, volta como detrito, para a lama do mangue, para virar caranguejo outra vez.

Aos poucos, carne e lama, homem e caranguejo, terra e mangue, comidas e fezes, perdem as características que as definem e se transformam todos em elementos do mesmo ciclo vicioso. Notadamente, as relações entre homens que produzem a Fome e a Sede, culminam em um processo de desumanização.


Sessenta anos depois, na música Da Lama ao Caos, Chico Science retrata a sua Paisagem de Recife. Só que com o agravante de que o processo de desumanização ampliou a sua territorialização por muitos mangues da região metropolitana de Recife.

Chico Science incorpora elementos da obra de Josué de Castro e estabelece um diálogo com ele. Os dois homens-caranguejos conversam. Josué alerta sobre a fome que aflinge Chico, que nos mostra que mais do que atual, essa discussão é crítica.

Ô Josué, eu nunca ví tamanha desgraça
quanto mais miséria tem / mais urubu ameaça.

Chico Science resgata Josué para mostrar sua desaprovação à possibilidade de reprodução do ciclo do caranguejo, também visível na letra da música:

O sol queimou, queimou a lama do rio / Eu ví um chié andando devagar / E um aratu pra lá e pra cá / E um carangueijo andando pro sul / Saiu do mangue, virou gabiru.

A violência da fome restringe as condições para o desenvolvimento dos intrumentos culturais necessários às possibilidades de emancipação social.

Peguei um baláio, fui na feira roubar tomate e cebola
Ia passando uma véia, pegou a minha cenoura
"Aí minha véia, deixa a cenoura aqui
Com a barriga vazia não consigo dormir"
E com o bucho mais cheio começei a pensar

E finalmente expressa sua vontade de romper com este ciclo, fruto de relações sociais desiguais, que só leva à uma realidade ainda mais caótica.

Posso sair daqui para me organizar
Posso sair daqui para desorganizar

Da lama ao caos, do caos à lama
Um homem roubado nunca se engana


O ciclo naturalizado que animaliza homens é interrompido conforme os mangues se poluem e os caranguejos escasseiam. O mangue se desmancha na nova dinâmica imposta pela ocupação humana. Gerações de homens-caranguejos nascem dessa lama em crise, que se renova com as lágrimas a cada morte de caboclos e seus filhos.

Essa Recife caótica, com seus Mucambos Kafkanianos, só poderia ser palco de assemelhada Metamorfose. Só que aqui o Gregor Samsa tem cérebro - Aqui carangueijos têm cérebro[5] : Um movimento cultural amplo que se manifesta por e a partir do mangue.

Ao observar a grande complexidade das relações sócio-biológicas do mangue, Chico Science e a Nação Zumbi lançam seu primeiro disco, com elementos do pop, rock, rap e maracatu, criando o Manguebeat. Se o ecossistema sobrevive por meio de relações que incorporam todos os elementos possíveis, assim também vai ser sua música.


No conjunto coerente formando pelos primeiros discos do movimento e o Manifesto Manguebeat, ficam claras suas proposições: Com as mãos e pés sujos de lama, os homens caranguejos infincam uma antena parabólica na lama. A energia nasce das relações humanas degradas, a fome é sua força social. A trasmissão conecta o lugar ao mundo e o mundo no lugar. É mais um esforço no sentido de dizer que a fome é a expressão biológica de males sociológicos. E a
a forma de "sair daqui", encontrada pelos mangueboys é produzir cultura de mangue, transmitir lama pelo rádio.


[1] A Fome como Força Social, Josué de Castro
[2] O CICLO DO CARANGUEJO, Josué de Castro, 1935
[3]
[4]
[5] Manifesto do Manguebeat: Caranguejos com Cérebros. Fred Zero Quatro, 1994.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Geografia Agrária e Sensoriamento Remoto

Nesse mês será colocado em órbita mais um satélite da família CBERS, uma série sino-brasileiro de tecnologia de plataformas orbitais para sensoriamento remoto. Entre os projetos que utilizam as imagens geradas pelo CBRS 2, em órbita desde 2003, está o CANASAT, que produz mapas temáticos através de sensoriamento remoto para localizar e quantificar a área plantada com cana-de-açúcar no Brasil inteiro.

Projeto que é financiado pela elite econômica da agroindústria paulista: CTC, UNICA e o centro de pesquisas aplicadas em agronegócio da ESALQ-USP. O detalhe é que essa informação valiosa gerada pelo CANASAT é disponibilizada gratuitamente na Internet. E como Geógrafo que pretendo ser, já estou pensando como Milton Santos no que se refere ao uso público das tecnologias privadas.
As informações
O CANASAT disponibiliza as seguintes informações por estado: área plantada em ha, localização de usinas e destilarias, informações das safras de 2003 a 2007, evolução da área plantada por município e por EDR e, principalmente, os ortofoto-mosaicos, geradas por sensoriamento remoto.

O sensoriamento remoto para um Geógrafo
As problematizações na produção do conhecimento em Geografia surgem quando o cientista interage empiricamente com a realidade, através dos seus sentidos, e muitas vezes, através das técnicas que funcionam como prolongamentos e evoluções dos sentidos. Observa-se um universo amostral e propôe-se uma hipótese mais geral. Em outras palavras, a senso-percepção em um método indutivo-dedutivo.

O S.M. pode ser entendido como um prolongamento do sentido da visão, pois produz imagens a partir de um ponto de onde o olho humano não pode estar, e mais, por meio de sensores que captam radiações invisíveis ao olho humano.
A interpretação das fotosaéreas garantem uma visualização complexa da realidade, sobrepondo escalas local e regional no mesmo projeto. Essas imagens, entretanto, não resumem a vida em suas diversas dimensões. Um trabalho de campo envolve outras técnicas de observação, e pode produzir informações que não podem ser geradas pelo Sensoriamento Remoto. O S.M. contribui, portanto, para o desenvolvimento teórico da análise do Geógrafo, e não substitui o Trabalho de Campo empírico. Uma pesquisa que utilizasse como metodologia o trabalho de campo associado ao Sensoriamento Remoto poderia contribuir para uma análise diferenciada que pode dar alguns passos além das atuais pesquisas.

Ao rasterizar um objeto através de dos sensores dos satélites, pode-se identificar muito mais do que o tipo de cultura produzida. A interpretação de fotos aéreas pode revelar informações que podem ser sistematizadas a organizadas dentro de uma pesquisa geográfica. As rasterizações de vegetações na faixa do Ultravioleta, por exemplo, podem fornecer dados sobre a condição física do vegetal, pelas diferentes interações com a radiação solar em vegetais com composições de clorofila diferentes. Pode-se chegar até o ponto de identificar se um vegetal está saudável ou não. No caso do CanaSat, me parecem essenciais as informações acerca de localização e quantificação da produção da cana e das usinas.

Para analisar o mesmo fenômeno geográfico ao qual vou me referir (produção de cana de açúcar no estado de são paulo), uma corrente que tem encontrado bastante repercussão parte da análise da relação social para entender o território. Mas, como “fazer falar o território” me parece muito mais geográfico do que fazer falar a sociedade, é partindo da análise da configuração do território que vou tentar analisar a sociedade que o produziu em seu espaço. E pretendo mostrar que as imagens de S.M podem ser consideradas como um instrumento para a interpretação da paisagem, assim como um mapa também é instrumento do geógrafo.

Uma possível interpretação - Proposições


Imagem gerada utilizando o aplicativo Web do CANASAT, 2007. Allan Cob

É possível observarmos uma mancha rosada. Somando-se alguns detalhes simples como a rede de transportes e a localização das Usinas, poderíamos chegar à um modelo próximo ao de um eixo voltado para a capital? E se pensarmos a localização histórica de cada uma das manchas, poderíamos supor que essa região rosada se apresenta como eixo de expansão da produção de cana de açúcar? Ela apresenta uma tendência lida através das fotos dos últimos anos? No atlas do estado de SP do SEADE aparece um modelo do professor Hervé que mostra exatamente esse eixo, sua direção e sentido.

Por que esse eixo está localizado no Oeste Paulista? Se pensarmos que a dinâmica territorial funciona por meio de fixos e fluxos, poderíamos identificar as causas da localização desse eixo de expansão da cana? Alguma relação com as distâncias, densidades e localizações de centros de consumo e exportação?

O fato de ter ocorrido uma mudança da cultura produzida, territorialmente localizável, pode revelar alguma outra transformação na sociedade? Será que quem hoje produz cana em um lugar que antes produzia gêneros agrícolas que não chegam ao status de comodities, é o mesmo produtor ou produz do mesmo modo que o antigo produtor? Para os mesmos consumidores?


O uso do solo se tornou diferente? Alguém teve que migrar? Qual é a relação da mecanização da produção com a concentração de terras que mobilizam trabalhos desumanos? Em uma análise macroeconômica, essa produção segue uma tendência a se homogeneizar pelo estado adentro?

O simples fato de levantar questões como essas já demostra como o Sensoriamento Remoto pode ser útil na produção do conhecimento em Geografia.

Uma Espistemologia Estática
A sociologia agrária, herdeira da crise do marxismo ocidental, está imobilizada em oferecer explicações mais profundas sobre a realidade, por não ter sido capaz de se desvencilhar da crítica do capitalismo do ponto de vista do trabalho. A Geografia, que também pode fazer uso do marxismo, analisando formas e estruturas historicamente construídas, dialeticamente, entre a sociedade e seu meio, pode ir um pouco mais além: Ao criticar o trabalho no capitalismo, através da análise da configuração do território, explicando geograficamente, porque essa estrutura produtiva é desigual, concentradora, conflituosa, e contraditória quando se materializa no território. E identificar tendências na produção do espaço para então propor intervenções práticas que não positivem trabalhos como o da Cana.

Concluindo...

Longe do céu Iluminista de pureza ideológica, me encontro em uma posição ideológica que vê conflitos humanos na produção da cana. Pois tal como ela é produzida hoje, pode-se dizer que é acompanhada por: concentração territorial, degradação do trabalho no campo tecnificado, movimento migracionais de mobilização forçada ao trabalho e movimentos sociais de luta pela terra.

Para compreender a realidade agrária brasileira, deve-se partir do questionamento da configuração do território. E a técnica de sensoriamento remoto deve ser amplamente conhecida pelo geógrafo para ampliar a sua visão e formular novas questões. Fazer o território falar também pelas imagens de satélite, pois a chave para o entendimento da realidade em Geografia está na análise do espaço que sua sociedade produz.