segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Geografia Agrária e Sensoriamento Remoto

Nesse mês será colocado em órbita mais um satélite da família CBERS, uma série sino-brasileiro de tecnologia de plataformas orbitais para sensoriamento remoto. Entre os projetos que utilizam as imagens geradas pelo CBRS 2, em órbita desde 2003, está o CANASAT, que produz mapas temáticos através de sensoriamento remoto para localizar e quantificar a área plantada com cana-de-açúcar no Brasil inteiro.

Projeto que é financiado pela elite econômica da agroindústria paulista: CTC, UNICA e o centro de pesquisas aplicadas em agronegócio da ESALQ-USP. O detalhe é que essa informação valiosa gerada pelo CANASAT é disponibilizada gratuitamente na Internet. E como Geógrafo que pretendo ser, já estou pensando como Milton Santos no que se refere ao uso público das tecnologias privadas.
As informações
O CANASAT disponibiliza as seguintes informações por estado: área plantada em ha, localização de usinas e destilarias, informações das safras de 2003 a 2007, evolução da área plantada por município e por EDR e, principalmente, os ortofoto-mosaicos, geradas por sensoriamento remoto.

O sensoriamento remoto para um Geógrafo
As problematizações na produção do conhecimento em Geografia surgem quando o cientista interage empiricamente com a realidade, através dos seus sentidos, e muitas vezes, através das técnicas que funcionam como prolongamentos e evoluções dos sentidos. Observa-se um universo amostral e propôe-se uma hipótese mais geral. Em outras palavras, a senso-percepção em um método indutivo-dedutivo.

O S.M. pode ser entendido como um prolongamento do sentido da visão, pois produz imagens a partir de um ponto de onde o olho humano não pode estar, e mais, por meio de sensores que captam radiações invisíveis ao olho humano.
A interpretação das fotosaéreas garantem uma visualização complexa da realidade, sobrepondo escalas local e regional no mesmo projeto. Essas imagens, entretanto, não resumem a vida em suas diversas dimensões. Um trabalho de campo envolve outras técnicas de observação, e pode produzir informações que não podem ser geradas pelo Sensoriamento Remoto. O S.M. contribui, portanto, para o desenvolvimento teórico da análise do Geógrafo, e não substitui o Trabalho de Campo empírico. Uma pesquisa que utilizasse como metodologia o trabalho de campo associado ao Sensoriamento Remoto poderia contribuir para uma análise diferenciada que pode dar alguns passos além das atuais pesquisas.

Ao rasterizar um objeto através de dos sensores dos satélites, pode-se identificar muito mais do que o tipo de cultura produzida. A interpretação de fotos aéreas pode revelar informações que podem ser sistematizadas a organizadas dentro de uma pesquisa geográfica. As rasterizações de vegetações na faixa do Ultravioleta, por exemplo, podem fornecer dados sobre a condição física do vegetal, pelas diferentes interações com a radiação solar em vegetais com composições de clorofila diferentes. Pode-se chegar até o ponto de identificar se um vegetal está saudável ou não. No caso do CanaSat, me parecem essenciais as informações acerca de localização e quantificação da produção da cana e das usinas.

Para analisar o mesmo fenômeno geográfico ao qual vou me referir (produção de cana de açúcar no estado de são paulo), uma corrente que tem encontrado bastante repercussão parte da análise da relação social para entender o território. Mas, como “fazer falar o território” me parece muito mais geográfico do que fazer falar a sociedade, é partindo da análise da configuração do território que vou tentar analisar a sociedade que o produziu em seu espaço. E pretendo mostrar que as imagens de S.M podem ser consideradas como um instrumento para a interpretação da paisagem, assim como um mapa também é instrumento do geógrafo.

Uma possível interpretação - Proposições


Imagem gerada utilizando o aplicativo Web do CANASAT, 2007. Allan Cob

É possível observarmos uma mancha rosada. Somando-se alguns detalhes simples como a rede de transportes e a localização das Usinas, poderíamos chegar à um modelo próximo ao de um eixo voltado para a capital? E se pensarmos a localização histórica de cada uma das manchas, poderíamos supor que essa região rosada se apresenta como eixo de expansão da produção de cana de açúcar? Ela apresenta uma tendência lida através das fotos dos últimos anos? No atlas do estado de SP do SEADE aparece um modelo do professor Hervé que mostra exatamente esse eixo, sua direção e sentido.

Por que esse eixo está localizado no Oeste Paulista? Se pensarmos que a dinâmica territorial funciona por meio de fixos e fluxos, poderíamos identificar as causas da localização desse eixo de expansão da cana? Alguma relação com as distâncias, densidades e localizações de centros de consumo e exportação?

O fato de ter ocorrido uma mudança da cultura produzida, territorialmente localizável, pode revelar alguma outra transformação na sociedade? Será que quem hoje produz cana em um lugar que antes produzia gêneros agrícolas que não chegam ao status de comodities, é o mesmo produtor ou produz do mesmo modo que o antigo produtor? Para os mesmos consumidores?


O uso do solo se tornou diferente? Alguém teve que migrar? Qual é a relação da mecanização da produção com a concentração de terras que mobilizam trabalhos desumanos? Em uma análise macroeconômica, essa produção segue uma tendência a se homogeneizar pelo estado adentro?

O simples fato de levantar questões como essas já demostra como o Sensoriamento Remoto pode ser útil na produção do conhecimento em Geografia.

Uma Espistemologia Estática
A sociologia agrária, herdeira da crise do marxismo ocidental, está imobilizada em oferecer explicações mais profundas sobre a realidade, por não ter sido capaz de se desvencilhar da crítica do capitalismo do ponto de vista do trabalho. A Geografia, que também pode fazer uso do marxismo, analisando formas e estruturas historicamente construídas, dialeticamente, entre a sociedade e seu meio, pode ir um pouco mais além: Ao criticar o trabalho no capitalismo, através da análise da configuração do território, explicando geograficamente, porque essa estrutura produtiva é desigual, concentradora, conflituosa, e contraditória quando se materializa no território. E identificar tendências na produção do espaço para então propor intervenções práticas que não positivem trabalhos como o da Cana.

Concluindo...

Longe do céu Iluminista de pureza ideológica, me encontro em uma posição ideológica que vê conflitos humanos na produção da cana. Pois tal como ela é produzida hoje, pode-se dizer que é acompanhada por: concentração territorial, degradação do trabalho no campo tecnificado, movimento migracionais de mobilização forçada ao trabalho e movimentos sociais de luta pela terra.

Para compreender a realidade agrária brasileira, deve-se partir do questionamento da configuração do território. E a técnica de sensoriamento remoto deve ser amplamente conhecida pelo geógrafo para ampliar a sua visão e formular novas questões. Fazer o território falar também pelas imagens de satélite, pois a chave para o entendimento da realidade em Geografia está na análise do espaço que sua sociedade produz.

1 comentários:

Anônimo disse...

Fala Allan! Aqui é o Gustavo! Você praticamente postou um projeto de iniciação cientifica! hahahahhahaha...achei pertinentes as questões colocadas pela análise da mancha rosa obtidas pelas imagens do satélite. Porém, acredito ser necessário questionar quem tem a agência nesse processo. Na cidade que pesquisei, um dos atrativos para os empresários investirem por lá é o tamanho reduzido das propriedades rurais, que aliado com a produtividade, inviabiliza legalmente uma possível reivindicação pela posse. Outro ponto onde tenho dúvidas sobre como abordar é o da migração forçada. Não quero colocar em dúvida a relação causal proveniente da conjunção entre difícil condição de vida e "boas" oportunidades de trabalho no corte de cana. O que me faz relutar nisso é que o discurso entre os cortadores que tive contato é totalmente estranho a esse conceito. Para eles, é bem claro que o desejo deles em se tornar cortador foi uma das opções que eles puderam escolher outras, ou seja, não foram coagidos a isso. Não quero chegar ao absurdo de concordar com o que propõe esse trabalho http://www.sober.org.br/palestra/9/303.pdf , mas abordar a questão por um viés, por exemplo, marxista-ortodoxo (eu sei que não é sua intenção nesse texto), acaba por afastar o sujeito do estudo da própria realidade apreendida pelo pesquisador. Imagino que a sua intenção nesse texto não foi de propor exclusivamente essas questões, gostaria de fazer uma contribuição de quem não utiliza desses olhos biônicos (mas sim de outros) na apreensão do campo de pesquisa. Abraços.