O Mangue é Local que desabita a humildade para ser suburbana.
Afunda miséria no rio que não sabe se é gente ou cisco.
Manguezal é o poema selvagem das margens, esquecido na lama, estranhado, perdido no próprio país.
Tânia Lima
Josué de Castro, pernambucano de Recife, nascido em 1908, é referência importante em temas como Geografia, Biologia Social e Nordeste. Mas a Fome foi verdadeiramente sua Força Social[1]. Josué escreveu A Geografia da Fome, inaugurando uma série de estudos sobre o Brasil, e orientando sua vida como combatente do silêncio imposto pela mídia e pelas universidades à fome em todo o mundo.
É a singular sensibilidade sobre a condição humana que une Josué e Chico nesta tentativa de leitura intertextual entre O Ciclo do Caranguejo, 1935, e Da Lama aos Caos, 1994.
No conto Ciclo do Caranguejo, arte e ciência confluem para descrever a relação entre Espaço e Homem, Caboclo e Mangue. A história é de Zé Luis e sua família, migrando do sertão pra cidade, e na cidade pra dentro do mangue.
A família Silva mora nos "mangues" da cidade do Recife, num "mocambo" que o chefe da família fez quando chegou de cima. A família é originária do sertão. Desceu do Cariri, na seca, perseguida pela fome. Fez uma paradinha no brejo, para tentar o trabalho das usinas, mas não se pôde agüentar com os salários dessa zona, sem ter direito a plantar senão cana. Sem ter, nem ao menos o recurso do xiquexique e da macambira, como no sertão, para quando a fome apertasse." [O CICLO DO CARANGUEJO, Josué de Castro]
Castro se apropria de características do movimento regionalista realista que tem como figura central Guimarães Rosa: compreender a realidade, o momento presente, as correlações entre homem e meio, a linguagem e a paisagem.
Os mangues do Capibaribe são o paraíso do caranguejo. Se a terra foi feita pro homem, com tudo para bem servi-lo, também o mangue foi feito especialmente pro caranguejo.Tudo aí, é foi ou está para ser caranguejo, inclusive a lama e o homem que vive nela. A lama misturada com urina, excremento e outros resíduos que a maré traz, quando ainda não é caranguejo, vai ser. O caranguejo nasce nela, vive dela. Cresce comendo lama, engordando com as porcarias dela, fazendo com lama a carninha branca de suas patas e a geléia esverdeada de suas vísceras pegajosas. Por outro lado o povo daí vive de pegar caranguejo, chupar-lhe as patas, comer e lamber os seus cascos até que fiquem limpos como um copo. E com a sua carne feita de lama fazer a carne do seu corpo e a carne do corpo de seus filhos. São cem mil indivíduos, cem mil cidadãos feitos de carne de caranguejo. O que o organismo rejeita, volta como detrito, para a lama do mangue, para virar caranguejo outra vez.
Aos poucos, carne e lama, homem e caranguejo, terra e mangue, comidas e fezes, perdem as características que as definem e se transformam todos em elementos do mesmo ciclo vicioso. Notadamente, as relações entre homens que produzem a Fome e a Sede, culminam em um processo de desumanização.
Sessenta anos depois, na música Da Lama ao Caos, Chico Science retrata a sua Paisagem de Recife. Só que com o agravante de que o processo de desumanização ampliou a sua territorialização por muitos mangues da região metropolitana de Recife.
quanto mais miséria tem / mais urubu ameaça.
Ia passando uma véia, pegou a minha cenoura
"Aí minha véia, deixa a cenoura aqui
Com a barriga vazia não consigo dormir"
E com o bucho mais cheio começei a pensar
Posso sair daqui para desorganizar
Um homem roubado nunca se engana
Essa Recife caótica, com seus Mucambos Kafkanianos, só poderia ser palco de assemelhada Metamorfose. Só que aqui o Gregor Samsa tem cérebro - Aqui carangueijos têm cérebro[5] : Um movimento cultural amplo que se manifesta por e a partir do mangue.
Ao observar a grande complexidade das relações sócio-biológicas do mangue, Chico Science e a Nação Zumbi lançam seu primeiro disco, com elementos do pop, rock, rap e maracatu, criando o Manguebeat. Se o ecossistema sobrevive por meio de relações que incorporam todos os elementos possíveis, assim também vai ser sua música.
No conjunto coerente formando pelos primeiros discos do movimento e o Manifesto Manguebeat, ficam claras suas proposições: Com as mãos e pés sujos de lama, os homens caranguejos infincam uma antena parabólica na lama. A energia nasce das relações humanas degradas, a fome é sua força social. A trasmissão conecta o lugar ao mundo e o mundo no lugar. É mais um esforço no sentido de dizer que a fome é a expressão biológica de males sociológicos. E a a forma de "sair daqui", encontrada pelos mangueboys é produzir cultura de mangue, transmitir lama pelo rádio.
[1] A Fome como Força Social, Josué de Castro
[2] O CICLO DO CARANGUEJO, Josué de Castro, 1935
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[5] Manifesto do Manguebeat: Caranguejos com Cérebros. Fred Zero Quatro, 1994.





1 comentários:
excelente matéria, todos os pernambucanos (brasileiros tb) deveriam ler!
abraços!
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