domingo, 24 de fevereiro de 2008

O Ciclo do Caranguejo em "Do Caos à Lama"

O Mangue é um sertão pelo avesso.
O Mangue é Local que desabita a humildade para ser suburbana.
Afunda miséria no rio que não sabe se é gente ou cisco.
Manguezal é o poema selvagem das margens, esquecido na lama, estranhado, perdido no próprio país.
Tânia Lima


Josué de Castro, pernambucano de Recife, nascido em 1908, é referência importante em
temas como Geografia, Biologia Social e Nordeste. Mas a Fome foi verdadeiramente sua Força Social[1]. Josué escreveu A Geografia da Fome, inaugurando uma série de estudos sobre o Brasil, e orientando sua vida como combatente do silêncio imposto pela mídia e pelas universidades à fome em todo o mundo.


Viver próximo aos mangues de Refice contribuiu para sua formação cultural sensível, preocupada com os afogados neste mar da precariedade humana.

Francisco de Assis França, o Chico Science, tinha só dois anos quando Josué lançou seu único romance: Homens e Caranguejos. Em comum com o mestre, não só a origem geográfica, mas a legítima sensibilidade de um homem-caranguejo.


É a singular sensibilidade sobre a condição humana que une Josué e Chico nesta tentativa de leitura intertextual entre O Ciclo do Caranguejo, 1935, e Da Lama aos Caos, 1994.

No conto Ciclo do Caranguejo, arte e ciência confluem para descrever a relação entre Espaço e Homem, Caboclo e Mangue. A história é de Zé Luis e sua família, migrando do sertão pra cidade, e na cidade pra dentro do mangue.

A família Silva mora nos "mangues" da cidade do Recife, num "mocambo" que o chefe da família fez quando chegou de cima. A família é originária do sertão. Desceu do Cariri, na seca, perseguida pela fome. Fez uma paradinha no brejo, para tentar o trabalho das usinas, mas não se pôde agüentar com os salários dessa zona, sem ter direito a plantar senão cana. Sem ter, nem ao menos o recurso do xiquexique e da macambira, como no sertão, para quando a fome apertasse." [O CICLO DO CARANGUEJO, Josué de Castro]

Castro se apropria de características do movimento regionalista realista que tem como figura central Guimarães Rosa: compreender a realidade, o momento presente, as correlações entre homem e meio, a linguagem e a paisagem.

A leitura de Josué sobre a paisagem urbana é breve e crítica. Podemos ser levados a pensar com naturalidade o fato de não haver trabalho para Zé Luis na cidade. Mas só podemos entender essa condição se partimos da noção de mobilidade do trabalho (Marx e Gaudemar) para situramos o movimento migratório da Família como uma forma de expressão da mobilidade imanente ao trabalhador. Mobilizado para mudar de emprego, de cidade, de função, de carga horária ou período, enfim, mobilizado pela reprodução social capitalista a agir mais como um apêndice do maquinário do que de fato sujeito autônomo que escolhe seu lugar de destino.


A Família Silva é orietada, portanto, por uma mobilização forçada pela busca ao trabalho. Em condições tão expúrias que animalizam o ser humano e o prende à um conjunto de relações cada vez mais degradantes. Assim é o Mangue de Josué:
Os mangues do Capibaribe são o paraíso do caranguejo. Se a terra foi feita pro homem, com tudo para bem servi-lo, também o mangue foi feito especialmente pro caranguejo.Tudo aí, é foi ou está para ser caranguejo, inclusive a lama e o homem que vive nela. A lama misturada com urina, excremento e outros resíduos que a maré traz, quando ainda não é caranguejo, vai ser. O caranguejo nasce nela, vive dela. Cresce comendo lama, engordando com as porcarias dela, fazendo com lama a carninha branca de suas patas e a geléia esverdeada de suas vísceras pegajosas. Por outro lado o povo daí vive de pegar caranguejo, chupar-lhe as patas, comer e lamber os seus cascos até que fiquem limpos como um copo. E com a sua carne feita de lama fazer a carne do seu corpo e a carne do corpo de seus filhos. São cem mil indivíduos, cem mil cidadãos feitos de carne de caranguejo. O que o organismo rejeita, volta como detrito, para a lama do mangue, para virar caranguejo outra vez.

Aos poucos, carne e lama, homem e caranguejo, terra e mangue, comidas e fezes, perdem as características que as definem e se transformam todos em elementos do mesmo ciclo vicioso. Notadamente, as relações entre homens que produzem a Fome e a Sede, culminam em um processo de desumanização.


Sessenta anos depois, na música Da Lama ao Caos, Chico Science retrata a sua Paisagem de Recife. Só que com o agravante de que o processo de desumanização ampliou a sua territorialização por muitos mangues da região metropolitana de Recife.

Chico Science incorpora elementos da obra de Josué de Castro e estabelece um diálogo com ele. Os dois homens-caranguejos conversam. Josué alerta sobre a fome que aflinge Chico, que nos mostra que mais do que atual, essa discussão é crítica.

Ô Josué, eu nunca ví tamanha desgraça
quanto mais miséria tem / mais urubu ameaça.

Chico Science resgata Josué para mostrar sua desaprovação à possibilidade de reprodução do ciclo do caranguejo, também visível na letra da música:

O sol queimou, queimou a lama do rio / Eu ví um chié andando devagar / E um aratu pra lá e pra cá / E um carangueijo andando pro sul / Saiu do mangue, virou gabiru.

A violência da fome restringe as condições para o desenvolvimento dos intrumentos culturais necessários às possibilidades de emancipação social.

Peguei um baláio, fui na feira roubar tomate e cebola
Ia passando uma véia, pegou a minha cenoura
"Aí minha véia, deixa a cenoura aqui
Com a barriga vazia não consigo dormir"
E com o bucho mais cheio começei a pensar

E finalmente expressa sua vontade de romper com este ciclo, fruto de relações sociais desiguais, que só leva à uma realidade ainda mais caótica.

Posso sair daqui para me organizar
Posso sair daqui para desorganizar

Da lama ao caos, do caos à lama
Um homem roubado nunca se engana


O ciclo naturalizado que animaliza homens é interrompido conforme os mangues se poluem e os caranguejos escasseiam. O mangue se desmancha na nova dinâmica imposta pela ocupação humana. Gerações de homens-caranguejos nascem dessa lama em crise, que se renova com as lágrimas a cada morte de caboclos e seus filhos.

Essa Recife caótica, com seus Mucambos Kafkanianos, só poderia ser palco de assemelhada Metamorfose. Só que aqui o Gregor Samsa tem cérebro - Aqui carangueijos têm cérebro[5] : Um movimento cultural amplo que se manifesta por e a partir do mangue.

Ao observar a grande complexidade das relações sócio-biológicas do mangue, Chico Science e a Nação Zumbi lançam seu primeiro disco, com elementos do pop, rock, rap e maracatu, criando o Manguebeat. Se o ecossistema sobrevive por meio de relações que incorporam todos os elementos possíveis, assim também vai ser sua música.


No conjunto coerente formando pelos primeiros discos do movimento e o Manifesto Manguebeat, ficam claras suas proposições: Com as mãos e pés sujos de lama, os homens caranguejos infincam uma antena parabólica na lama. A energia nasce das relações humanas degradas, a fome é sua força social. A trasmissão conecta o lugar ao mundo e o mundo no lugar. É mais um esforço no sentido de dizer que a fome é a expressão biológica de males sociológicos. E a
a forma de "sair daqui", encontrada pelos mangueboys é produzir cultura de mangue, transmitir lama pelo rádio.


[1] A Fome como Força Social, Josué de Castro
[2] O CICLO DO CARANGUEJO, Josué de Castro, 1935
[3]
[4]
[5] Manifesto do Manguebeat: Caranguejos com Cérebros. Fred Zero Quatro, 1994.

1 comentários:

Walter disse...

excelente matéria, todos os pernambucanos (brasileiros tb) deveriam ler!
abraços!