Como mais um efeito do relativismo pós-moderno, os conceitos têm se esvaziado. Mas no caso deste singelo termo, democracia, podemos dizer seguramente que
nunca foi realmente preenchido, dado a sua capacidade semântica potencial. A Democracia apresenta uma negatividade historica em relacao as possibilidades de suas realizacao conceitual. Hoje cabe a nos discutir quais sao os limites para a apreensao do mundo atraves de uma ideologia democratica: ate que ponto esta apreensao restringe o olhar e o fazer sobre a realidade?
Em outras palavras formar consumidores bem comportadinhos e previsíveis.
Já o visionário Serj Tankian, vocalista da banda System of a Dowm, encontrou a sua forma específica de falar sobre a democracia-imperialista estadunidense. Este é o videoclipe da música The Unthinking Majority (A maioria não-pensante), seguindo da tradução da letra para português.Nós não precisamos das suas democracias
Executem-nas amavelmente pra mim
Peguem as menores narinas sujas
Ponham-nas acima, em pensões caninas
Nós não precisamos da sua hipocrisia
Executem a real democracia
Sociedade pós-industrial
A maioria não pensante
Anti-depressivos
Ferramentas de controle do seu sistema
Fazendo a vida mais tolerável
Eu acredito que você esteja errado
Insinuando que eles seguraram a bomba
Abrindo o caminho para a brigada do petróleo
Isso sem falar na Mafalda, linda:
Outro momento democrático muito interessante foi apresentado pela revista Le Monde Brasil, na reportagem Bolivia: Revolução sem revolução, de abril de 2008.
Os autores apresentam o quadro político boliviano, em suas tentativas de reformas . Para encurtar o caso, as elites agroindustriais da Media Luna, (leste boliviano, composto pelas províncias de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando) conseguiram impedir, por meio de instrumentos legais (democráticos), as tentativas de uma possível reforma agrária.Um exemplo da pratica discursiva liberal, que cinde economia e politica naturalizando as apreeensoes sobre a realidade. Entendemos que o instrumental juridico e legislativo sao construidos de forma a serem ferramentas de gestao de uma formacao economico-social que se reproduz em crise (Economia e Politica nao estao cindidas na forma moderna de reproducao do Estado). O que se chama de democracia neste caso nao passa de um castelo burocratico que orienta a sociedade inteira a partir da forma-valor, da adequacao de uma Economia "nacional" aos padroes de produtividade internacionais, por meio do Estado.
Democracia: Um consenso silencioso.
combatente do silêncio, imposto quase que expontaneamente no mundo todo, à discussão do conceito de democracia. Disse ele assim: no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em 2002:Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder econômico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo."
No post anterior questionei a possibilidade de formação do indivíduo, no que Bernard Stiegler chama de período hiperindustrial. Neste post aqui pergunto: mas e cidadãos, podemos ser? Quais sao as possibilidades de afirmacao de uma sociedade cidadã? Em contrapartida, quais os limites de apreensao do mundo atraves da optica iluminista da cidadania? Qual e a negatividade do cidadao?
Discutir Democracia, de forma positiva, em nossos dias tem relação direta com o que entendemos por cidadania, o lugar da existência, o espaço do vivido e a possibilidade de práxis nas territorialidades nas quais os conflitos do cotidiano estão postos. O Espaço do Cidadão é um livro que coloca estas questões no cerne da discussão. Recentemente re-editado pela EDUSP, Milton Santos discute o cidadão, contrapondo ao consumidor. Será que o consumidor sabe pensar como o cidadão? Sabe agir, existir, atuar, praticar ou todas as suas ações são mediadas pelo consumo? O movimento do pensamento de Santos vai no sentido de realizar conceitualmente a democracia através da positivacao do cidadao em contraposicao ao consumidor, de certa forma amparado por uma concepção positiva de direito.Ademais, qual é o preço de se reinvindicar o Direto Positivo do Cidadão nas franjas de Instituições como o Estado Nacional Territorial?
Entendemos que para refletir sobre essas questões, devemos criar um parâmetro negativo; o não-cidadão ou o cidadão negativo, afim de tornar a discusão mais abrangente.
O Cidadao Negativo
Pensar o negativo do cidadão nessa sociedade moderna específica, mediada pela forma-valor, trata-se do último ponto deste post. Assim pode ser possível delimitar limites objetivos da cidadania, exercida por um sujeito que pratica uma democracia negativa - entendida como subtotalidade política do moderno sistema produtor de mercadorias, determinado a se reproduzir por de uma forma social específica.
Neste sentido, a contribuição de Robert Kurz é muito importante em dois aspectos. Em primeiro lugar resituar o papel do Estado moderno, como construção histórica ideológica, organizador da vida social e econômica moderna, normatizador de relações de mercado e concorrência, gestor da reprodução crítica do capitalismo contemporâneo, peça fundamental do sistema produtor de mercadorias.
Em segundo lugar resituar um paradigma:
"As ideias iluministas centrais de 'liberdade', 'igualdade' e de 'autonomia-responsabilidade' do 'individuo autonomo' estão, segundo seu conceito, talhadas para a forma capitalista do sujeito do 'trabalho abstrato' (Marx), da economia empresarial, do mercado totalitário e da concorrencia universal. Liberdade e igualdade no sentido do Iluminismo foram sempre identicas a auto-submissão dos homens as formas socias do sistema capitalista."
(KURZ, 2004, A nova simultaneidade histórica.)
Para Kurz, qualquer movimento no sentido de repor a cidadania , em sua clássica relação com o Estado Nação, não passa da reafirmação da forma social do trabalho voluntário-compulsório e abstrato. Consequentemente, a redução da vida e de suas diferenças à desigualdades medidas pela forma-valor.
E aí? Você quer ser um cidadão?
3 comentários:
Mesmo sendo uma aula confusa e ruim, o colângelo tem falas tão interessantes e que evidenciam a realidade. Numa das aulas dele ela dizia que não há "democracia" nosso mundo moderno. Não temos separação entre os "poderes", não temos representação livre (a famosa urna que diz que o voto nulo é "errado" hehe)e mais um que eu não lembro. E o pior, ainda estamos longe de ter um "modelo" de democracia dentro de uma política de educação básica. Somos educados (pelo menos no Brasil) a la terceiro-mundistas servidores. O pior, nem essa ideologia de defender um estado democratico, como os americanos e europeus tanto se gabam, temos! Ou talvez seja bom, somos "livres" a contruir um paradigma sem muitos ideais consolidados!
Gostei do texto!
Abraços
Talvez, antes de perguntarmos como age um cidadão, seja coveniente perguntarmos: quem quer a democracia? As soluções que ela apresenta satisfazem os anseios do homem como indivíduo, como consumidor? Ou melhor, ela se encaixa no cotidiano de um ser cujo impulso pelo consumo é explicado pela psicilogia? Além do mais, qual modelo seria ideal para abranger um homem fragmentado, especializado e ao mesmo tempo perdido num mundo catalogado por ele mesmo?
Penso em nossa tão pequena experiência dita "democrática". Somos um país que vive há não mais do que 30 anos em um sistema denominado desta forma (e apenas denominado) mas totalmente sem conteúdo. Dá uma agonia, pois parece que tudo sempre foi assim...
Sábias palavras de Saramago, ao nos dizer da urgência em discutirmos a democracia- conceito do qual pouco ou nada conhecemos...
Entendo que do modo como nos organizamos politicamente, a liberdade confunde-se (intencionalmente) com a possibilidade de fazer escolhas todas elas privadas. Enquanto há a idéia de que estas podem ser atendidas, a reflexão sobre o estado das coisas, no sistema democrático moderno é substituída pela repetição do imediatismo da vida deste mundo. Não se volta ao passado dar luz ao presente,e as tradições tornam-se obsoletas... Esvai-se a singularidade, e com ela toda a possibilidade de sermos cidadãos plurais e livres.
Boas idéias foram lançadas em seus pensamentos.
Postar um comentário