domingo, 23 de novembro de 2008

Por que um (Ser)tão Racional?

No Morro da Garça, no meio do Vale do Rio das Velhas, vive Maria Xonada, benzedeira. Do falecido marido herdou pouco mais que o apelido sarcástico. O povo o tinha por Apaixonado, e Maria Apaixonada quedou ela. O que uma visita à casa de uma benzedeira idosa no meio do Sertão de Minas Gerias pode ajudar nas tentativas de compreender um particular da imposição imperativa do processo de modernização?























Maria nasceu em um tempo/espaço em que o acesso a Medicina Científica era esparso e casual. Da relação entre cristianismo e necessidades de cura nas comunidades em que viveu, criou-se um amálgama, o curandeirismo cristão: arte, magia e técnica de cura. Seus pacientes ou fiéis eram vizinhos e parentes. Quando a procuravam eram submetidos às suas preces para logo se encontrarem bem dispostos.


O processo onírico de aprendizado das rezas constitui uma forma cultural singular: a Benzedeira cria uma prática a partir das possibilidades quase extenuadas de sobrevivência, e encontra nos seus sonhos um mecanismo de afloramento de uma possível mediação entre o conflito social e o seu lugar na comunidade. A Ética comunitária exige, portanto, a constituição de um conjunto de costumes coletivos no que se refere ao tratamento dos problemas de saúde, nesse caso não cindidos entre o físico e o espiritual ou entre indivíduo e sociedade. As frases surgiam espontaneamente e ela jamais as esqueceria. Incentivada por sua mãe, decidiu que esse dom deveria ser posto a serviço do povo e iniciou suas bênçãos ainda menina.

O processo de modernização, que, diga-se de passagem, traz consigo a imposição de uma racionalidade instrumental, da ciência positiva, ainda que de forma não simultânea, atingiu o Morro da Garça e trouxe efeitos sobre práticas como a que ora apresentamos. Pois houve um dia em que Dona Maria foi chamada na cidade para que realizasse uma reza para alguém importante, uma persona do mundo racional: o médico. Ao se deparar com ele, a Curandeira, nervosa, esqueceu todas as frases que compunham suas preces e voltou para casa desolada.

O mundo moderno expropriou dela a possibilidade e a capacidade de cura, substituídas pela medicina moderna, muito mais produtiva. A chegada do posto de saúde, das farmácias e de médicos, trazem consigo objetos que carregam as forma modernas, estas nunca dissociadas dos conteúdos que lhe são correspondentes. Forma-Conteúdo que impõe novos ritmos e, sobretudo novas racionalidades à vida social. A curandeiria perde seu lugar na prática social coletiva no Morro da Garça, substituída pela medicina moderna pagã e racional, e o Morro da Garça perde sua condição de sociabilização coletiva em direção à moderna divisão social do trabalho. Das relações comunitárias às relações societárias.

Um conflito se estabelece envolvendo as formas de subjetivação do processo de racionalização instrumental no qual a existência de Dona Maria é descartada como produto obsolencente. Muitos que vão à sua procura em busca de curas são definidos como saudáveis pela Curandeira. Se furtar a enxergar os males que portam os doentes é uma forma sutil de entender que sua prática não é mais necessária (e a busca pela cura que faz voltar para casa os doentes sem benção, pode significar que tanto a curandeira quanto as pessoas que a procuram ainda estão perdidos em meio às transformações impostas pelo processo de modernização).

Dona Maria e os benzidos aceitam (pois é só o que podem fazer) que a Medicina substitua essa prática. Mas não de forma resignada, pois para Dona Maria, o moderno só pode ser incorporado caso a medicina pagã seja sacralizada:

"O médico cura, é muito bom. Mas só cura se Deus permitir"

Na imposição totalitária das formas modernas trava-se um embate entre razão sensível (representada pela cura religiosa) e razão instrumental (medicina moderna). O resultado é claro: formas modernas instrumentais padronizadas substituem o singular da existência dos lugares e dos sujeitos.

2 comentários:

Xavier disse...

Como lhe disse já, gostei do jogo de espelhos que trava em seu relato. Principalmente por não ser simples oposição entre razão e emoção, mas sim pela preocupação concreta de evidenciar que esses elementos são constitutivos da realidade, simultaneamente.

Abraços

Thais Michele Rosan disse...

Adorei..

Tu escreve muito bem.